Mais de 40 anos dedicados aos porongos e as cuias

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Sentinela do Sul – Um dos elementos essenciais para o preparo de um bom chimarrão é a cuia, que é feita de porongo, uma planta da família das trepadeiras que produz frutos de diversos formatos e características, dependendo da espécie. A cuia também pode ser feita de madeira, chifre, porcelana e até de alumínio, porém nenhum desses materiais compete com o porongo que tem um formato natural ideal para ser transformado nessa peça artesanal tão manuseada pelos gaúchos.
Para se fazer uma boa cuia é preciso matéria prima de boa qualidade e habilidade, além de experiência, coisa que o casal Olavo Pooch, 68 anos, e Vera Maria Danelon Pooch, 69 anos, adquiriu ao longo dos mais de 40 anos trabalhando na atividade e das milhares de cuias produzidas e comercializadas por eles na casa onde residem à beira da BR-116.
Até mesmo a localidade onde moram, em Sentinela do Sul, recebe o nome de Estrada dos Porongos, identidade nacionalmente conhecida e oriunda da atividade econômica do casal.

O início
Olavo conta que a atividade surgiu por acaso quando seu pai que comercializava produtos coloniais em uma tenda a beira da BR-116, decidiu plantar umas sementes de porongo que havia ganhado e com a produção dos pés que vingaram confeccionou as primeiras cuias, sendo que parte delas deu de presentes aos parentes e as que sobraram expôs nas prateleiras da tenda e logo foram vendidas.
No ano seguinte eles decidiram plantar mais alguns pés de porongos e tudo o que produziram foi tranformado em cuia e vendido na tenda. A atividade seguiu aumentando e a lavoura cultivada já passava de cinco hectares quando, dez anos mais tarde, seu Albino faleceu e Olavo decidiu dividir as cuias com os irmãos, porém nenhum dos familiares se interessou pelos produtos, quando então Vera resolveu vendê-las na “barraca” à beira da rodovia e o comércio mais um vez fez sucesso.
Na época Olavo que cultivava cerca de 17 hectares de arroz foi aos poucos migrando para o plantio de porongos e no ano de 2003 atingiu o auge da produção quando chegou a cultivar 140 hectares da planta.

O cultivo e a fabricação das peças
Seu Olavo diz que para se produzir um bom porongo é preciso considerar uma série de cuidados com a planta ao longo do cultivo. São quatro espécies cultivadas pelo casal: o porongo cuia, para fabricação da cuia tradicional, o gajeta, espécie mais arredondada, o pingo de mel, para a fabricação das conchinas de servir a erva mate e recentemente o porongo serpente, utilizado para adorno das cuias.
O produtor da dicas sobre o cultivo e ensina suas técnicas, incluindo o cuidado para evitar a cruza das espécies e consequentemente a deformação dos frutos, a rotatividade de área de cultivo, os cuidados com o preparo do solo, época de plantio, entre outras.
“Tem gente que não gosta de contar o segredo, diz que isso vale dinheiro. Eu digo que o sol nasceu pra todos e a sombra pra quem procura. Eu já penso em parar com a atividade e gostaria que outros continuassem”, revelou Olavo.
Depois dos frutos formados ele são colhidos e recolhidos a um galpão onde ficam depositados em prateleiras para em seguida serem transformados nas peças definitivas para vendas.
As peças fabricadas na propriedade são lisas, sem arremates artesanais, porém no local também são comercializadas peças trabalhadas, inclusive artesanatos do tipo porta trecos, pesos de portas, porta chaves, enfeites de natal, casas para passarinhos e até relógios, que são negociados com os artesãos em troca das peças lisas.

O impacto econômico e as dificuldades
O casal diminuiu bastante a área cultivada e atualmente planta menos de 30 hectares. Ele reclama da escassez de mão de obra e a elevação nos custos de produção.
Porém mais do que qualquer outro fator o que mais impactou negativamente na atividade foi o aumento significativo no preço da erva mate que fez com que os consumidores preferissem somente as cuias menores. “Há dois anos queimamos umas 70 mil cuias. Eu chorava em volta da caieira que nem criança”, lamentou.
No auge da produção chegavam a ser fabricadas 700 cuias por dia na propriedade e comercializadas uma média de 300 peças diariamente no varejo, além do fornecimento aos artesãos. Atualmente a venda no varejo caiu para menos de 100 peças e o comércio maior é para os artesãos.

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