Por Vinícius Cerqueira*

Vinícius Cerqueira

A recente tragédia que vitimou um homem negro na véspera do dia da Consciência Negra escancara, mais uma vez, a necessidade de manter a sociedade alerta contra as formas de discriminação racial.

A história brasileira está manchada pela utilização do trabalho escravo e pela consciência de que a abolição da escravatura não foi acompanhada da digna inserção do negro na economia. Os tempos mudaram desde a abolição da escravatura, a economia mudou, mas ainda há muito a se fazer para corrigir o grande mal que se impôs.

Para além da extrema agressão física, a segregação hoje manifesta-se de forma mais velada e, em certa medida, adaptada à modernidade. Anúncios publicitários, quando buscam associar um produto à imagem de sucesso, geralmente o fazem pela vinculação a um homem branco. Grandes filmes e séries geralmente retratam a vida e os feitos de pessoas brancas, construindo em icônicos personagens os padrões de beleza e símbolos de virtude. De outro lado, o negro permaneceu retratado em versões reformuladas da antiga exploração: com atuação secundária, em situação de vulnerabilidade economia ou social, pouco interferindo na linha principal da narrativa.

Muito já foi feito, mas ainda é longo caminho rumo à percepção e à desconstrução das diversas formas de racismo, e cada pessoa carrega em si parte da solução. A resiliência humana, provada pelos negros que gradualmente conquistam espaços e lutam por igualdade numa sociedade excludente, é fundamental no processo evolutivo. A empatia entre seres humanos, presente na postura daqueles que se colocam contra o racismo, também impulsiona o movimento de mudança.

Não devemos esperar que outra tragédia se apresente até que o assunto seja novamente tratado. É preciso manter a vigília sobre as próprias condutas e, principalmente, trabalhar coletivamente para que, um dia, o debate sobre o racismo no Brasil seja efetivamente um capítulo superado na história.

Vinicius Cerqueira é Procurador do Estado do RS, membro do Departamento de Assuntos Institucionais, Legislativos e Jurídicos da Associação dos Procuradores do Estado do RS (APERS) e integrante do Conselho Superior da PGE-RS.