Faleceu na madrugada desta sexta-feira, 05 de março, o médico Luiz Roberto Wander, aos 70 anos, vítima da Covid-19. Ele estava internado no hospital São Miguel, em Gramado, na Serra Gaúcha, desde o dia 26 de fevereiro, quando sentiu os sintomas da doença, incluindo febre e falta de ar.

Já na última terça-feira, 02 de março, o médico teve de ser transferido para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do hospital onde precisou ser entubado e também apresentou um quadro grave de insuficiência renal, tendo inclusive que fazer hemodiálise.

O agravamento rápido do quadro de saúde do médico pela ação do vírus acabou ceifando sua vida. Dias antes da fatalidade, na ocasião da internação no hospital, Wander chegou a mencionar que teria sido infectado por uma nova variante do coronavírus.

Um pouco da história

Luiz Roberto Wander – Foto: arquivo pessoal

Natural do município de Giruá, região Noroeste do Rio Grande do Sul, Wander se mudou para a capital gaúcha, onde se formou em medicina e conheceu Silvia Regina Simon, com quem foi casado por 24 anos.

No ano de 1977 o casal chegou a Cerro Grande do Sul, ainda vila Cerro Grande, 3° distrito de Tapes. Na comunidade do interior eles se estabeleceram. Ele trabalhando como médico no antigo Hospital Santa Teresinha, que havia alugado num primeiro momento e acabou adquirindo anos depois. Já a esposa, graduada em Farmácia e Bioquímica, atuava no laboratório no mesmo prédio, além de auxiliar o marido em diversos procedimentos.

Precursor da emancipação

O Portal ClicR conversou com Silvia que apesar de estar há anos separada de Wander, fala com carinho da história e dos ideais do ex-marido. Entre eles fez questão de mencionar que foi o médico o precursor da luta pela emancipação de Cerro Grande do Sul, levando a ideia à público, fazendo pesquisas e mobilizando a população.

“Ele comentava o assunto com todos que iam consultar no hospital. Convocava reuniões e chamava as pessoas para participar. Ele sempre teve um carinho muito grande por este lugar”, lembra a ex-esposa.

Um médico do povo

Foto: Colaboração / Janaina Olson

Silvia acrescenta que Dr. Wander era muito ligado aos moradores e que por vezes via o ex-marido ajudando as pessoas mais necessitadas e que não tinham como pagar por um atendimento médico.

“Lembro de uma vez que uma família inteira, muito pobre, chegou lá no hospital muito doente, com problemas de pele, as crianças tomadas de piolho e o Wander os acolheu e tratou deles. Fazíamos de tudo no hospital, inclusive partos. Acho que foram mais de duas mil crianças que nasceram pelas mãos dele em Cerro Grande”, comentou Silvia.

Sugestão de homenagem

Depois de relatar outros movimentos capitaneados pelo médico em prol da comunidade sulerrograndense, Silvia concluiu sugerindo que a cidade tenha uma rua com seu nome em homenagem aos relevantes serviços prestados.

Já na metade da década de 80 o casal decidiu investir em Guaíba, onde construiu um prédio para instalar uma clínica e sua nova moradia. Silvia mudou-se primeiro para ficar com os filhos e dar o suporte necessário a eles. Mais tarde, em 1987, 10 anos depois de ter chegado e um antes da emancipação, Dr. Wander deixou Cerro Grande do Sul definitivamente. O casal teve três filhos: Sabrina, que é publicitária, Fabrício e Brenda, que seguiram a carreira do pai.

Registros

A professora e pesquisadora da história sulcerrograndense, Maria do Carmo, a Mima, confirma os relatos de Silvia e diz que existem na Casa da Cultura, onde trabalha e pela qual é responsável, registros do movimento emancipacionista idealizado por Dr. Wander.

Mima conta ainda que na década de 80 trabalhou em um projeto de educação infantil que funcionava na antiga sede do clube Cruzeiro do Sul e que era em partes financiado pelo médico.

“Outra coisa que me lembro muito bem é que ninguém dançava uma valsa como ele. Era um ‘pé de valsa’ que te conto”, lembrou a professora.

A derradeira morada

Atualmente Dr. Wander estava residindo em Canela, na Serra Gaúcha. Em função da morte ter sido ocasionada pela Covid-19 não haverão atos fúnebres. O local do sepultamento ainda está sendo decidido pelos familiares.

O antigo hospital Santa Teresinha hoje pertence a prefeitura municipal depois de um processo de desapropriação que foi decidido na justiça e gerou um precatório ao município. No local funcionam diversos setores da administração municipal.