Por Arlete Salante – Psicóloga | CRP 07/22612

De uma forma ou de outra, me identifico e compreendo as mulheres que encontro. Em maior ou menor intensidade já vivi, agi ou pensei do mesmo modo. Onde uma sofre as outras também sofrem, onde uma erra as outras também erram, onde uma encontra a liberdade verdadeira, as outras também encontram, e assim vem a autorrealização.

A psicologia feminina, por ordem da natureza, faz uma constituição diversa, com força peculiar e graça. São muitas as facetas que compõem cada mulher, além das exigências do meio externo que potencializam a ambiguidade, tornando-as um tema controverso, um mistério para os homens e para as próprias mulheres.

Filósofos como Aristóteles, Hipócrates, São Tomás e Santo Agostinho contribuíram para rebaixamento social da mulher ao inferir, cada um na sua época à condição de inferior da mulher pelo tamanho dos músculos, pela incapacidade de raciocínio e até pela falta de alma. Tudo isso sem falar da origem bizarra a partir de uma costela. Como se não bastasse a condição histórica de inferiorização, Adão se delicia com a maçã juntamente com Eva, mas ela carrega a culpa milenar. Mesmo relativizando o mito de origem, porque é sabido que a Bíblia e dois mil anos de história foram, até o momento, escritos por homens, o estigma de culpa prevalece no inconsciente coletivo e se desloca para situações atuais. A exemplo disso, as mulheres que trabalham fora se culpam por não estar com os filhos.

A riqueza feminina incompreendida pelas próprias mulheres as coloca ainda infantis diante dos homens, sem respostas para as infames acusações. Muitas acreditam ainda que a razão de suas vidas seja apenas em função da família, de alguns homens, ou de um só. Estas não confiam na própria força ou não encontraram a sua alma, foram educadas para depender psicologicamente. O resultado é frustração e insegurança veladas, passada de mãe para filha por gerações.

Qual a visão da mulher hoje? Se ainda há tantos resquícios de comportamento, conforme determinação da igreja no período medieval, quando foram determinadas regras de convivência entre os sexos? Até quando os homens comandarão a sociedade em espaços públicos e as mulheres no plano da submissão doméstica? Ainda que nos espaços profissionais haja uma presença equilibrada, a cultura vigente precisa evoluir muito.

O mundo mudou, mas o lugar subjetivo que é dado a cada mulher ainda não mudou dentro das sociedades, das empresas, das famílias e das religiões. A começar pelas próprias mulheres e pela educação feminina. Por séculos, se impõe os mesmos modos e obrigações que as suas mães tiveram, repete-se o padrão sem compreender que, antes de haver um sexo (feminino ou masculino), existe um ser de inteligência. E inteligência não tem sexo!