O município de Barão do Triunfo/RS assim como diversos outros municípios do Estado do RS tem sua economia baseada na agricultura. Possui como cultura mais expressiva o Tabaco. Na safra atual a comissão municipal de estatística aponta para 2.800ha cultivados.

Historicamente sabemos que os preços dos produtos agrícolas são cíclicos, dependem do clima, produtividade, oferta e demanda. Ocorre que neste último trimestre de 2020 os preços encontrados nas prateleiras dos supermercados têm assustado de sobremaneira a população em geral, destacando-se as carnes, azeite, ovos e derivados do leite. Este avanço nos preços explica-se em parte pela pandemia, redução dos estoques públicos de alimentos, comércio e demanda internacional, dificuldades climáticas em diversas partes do planeta, especulação nos commodities, contratos futuros, bem como a elevação da moeda americana. Enfim, uma série de fatores contribuindo para este cenário, que evidentemente afetará de forma contundente as famílias de classe média e baixa.

A Emater/RS ASCAR estabelece dentro de suas diretrizes e planejamento ações voltadas para segurança e soberania alimentar, objetivando a chamada produção para autoconsumo, que nada mais é do que aquela produção de alimentos através da mão de obra familiar, geralmente nos intervalos de demanda da atividade principal da propriedade, para consumo da casa, sem destinação expressiva para venda externa. Por muitas vezes esta produção acaba sendo desmerecida, visto que ela não resulta em entrada de dinheiro dentro da casa e observa-se que a defesa destas ações dentro da família acaba por ser a mulher, que tem um senso mais aguçado de percepção sobre o quão importante é este conjunto de pequenas produções, pois além de reduzir substancialmente os gastos no mercado, resulta na oferta de um alimento de altíssima qualidade, fresco e livre de contaminantes.

Dito isto, entende-se que o momento atual estimula ações nesse sentido por parte das famílias. Entretanto alguns pontos devem ser analisados: sabe-se que o tempo disponível das famílias é extremamente escasso, por isso devemos ser estratégicos na escolha das atividades, potencializando possibilidades em que as condições da propriedade permitam obtermos os melhores resultados com o menor esforço possível. Por exemplo, avaliar a questão de açudes para piscicultura, pastagens naturais para criação de bovinos e ovinos, eucalipto para produção de mel, arvores frutíferas que exigem pouco manejo e despesa, hortaliças perenes, etc etc. Outro aspecto refere-se a questão do custo destas atividades, apesar de serem pequenas criações e cultivos, as despesas existem e muitas vezes não se realizam cálculos básicos de custo de produção. Deve-se realizar este levantamento, pois de nada adianta por exemplo, criar um suíno comprando um saco de milho a R$70,00. Deve haver a programação para o cultivo de alimentos como milho, mandioca e até a própria soja em pequena escala, visando reduzir a compra de rações, que inclusive pode ser fabricada na propriedade. Neste aspecto revela-se outro ponto fundamental, a compreensão e aplicação de pequenos sistemas de irrigação, que possibilitem vencer as estiagens que estão cada vez mais frequentes. Conversando com os técnicos é possível projetar soluções simples e de baixo custo nesse sentido.

Observa-se também a chamada sazonalidade da produção para autoconsumo. Habitualmente percebemos uma produção elevada na primavera ocorrendo grande redução no verão em virtude da estiagem e da disponibilidade de tempo das famílias em razão do tabaco. Para contrapor estas dificuldades, além da irrigação como citado, destaca-se os telados de sombreamento para hortas e cultivares adequadas ao calor. Precisamos planejar ações de armazenagem e conservação dos diversos alimentos: compotas, congelamento, fabricação de sucos, geleias, locais adequados para estocar culturas como cebola e grãos etc, enfim, uma série de ações que permitirão o consumo destes alimentos no período que mais se precisa. Um exemplo bastante interessante é o da uva, com 6 ou 7 pés de parreira, onde os frutos muitas vezes acabam estragando, é possível fabricar em torno 50L de suco em uma panela extratora, o que representaria R$ 500,00 caso esta família fosse adquirir este produto no mercado. Isso se repete para morango, pêssego e várias culturas. A família certamente não iria gastar este valor, mas pelo fato de ter disponível, acaba se alimentando de um produto extremamente saudável e rico.

Nos levantamentos realizados junto às famílias rurais é comum encontrar situações que a produção de autoconsumo ultrapassa valores estimados de R$1.500,00 por mês na família. Valores que não necessitam, portanto, sair do caixa da família para compra de alimentos. Possuímos como vantagens então a redução de gastos, o consumo de alimentos saudáveis e frescos, mas há também em muitos casos o aspecto terapêutico, visto que observa-se no meio rural diversos problemas relacionados à depressão. Atividades como uma horta rica ou pequenas criações tem comprovadamente ação efetiva na redução de medicamentos e melhoria da condição emocional.

Por Elias Davi Kuck – Extensionista Rural da Emater/RS, Técnico em Agropecuária, Engenheiro Agrônomo, Pós graduado em Georreferenciamento e Produtor Rural.