Em tempos de dor, medos e incertezas, é natural e esperado que cada um procure um caminho que lhe traga conforto, doses de confiança e a chance de encontrar a paz. Nesta entrevista concedida ao jornal Regional no mês de julho, o padre o Joel Nievinski, pároco da Igreja Matriz Nossa Senhora do Carmo de Tapes, abordou diferentes temas que estão sendo vividos por muitas famílias no atual momento da humanidade.

Regional – Esta foi a primeira vez na história que a paróquia não realizou seus tradicionais festejos e celebrações religiosas em homenagem a Nª Sª do Carmo. Como está sendo atravessar este período distante fisicamente dos fiéis?
Pe. Joel – Sim, pela primeira vez, não tivemos a novena e festa em honra a nossa padroeira Nossa Senhora do Carmo. Passar por esta data, sem aglomeração, alegria e muito trabalho preparatório e pós preparatório, foi e continua sendo uma provação. O grupo de festeiros: Elisabete Pinzon e Dr. Simon, Emilia Salatti e Paulo Antônio, Giana e Eduardo Centeno Nunes, Laureci R. Ferreira e Jorge Ferreira, Morgana Moraes e João Francisco Jasnievicz, Noeli Marina Correa winnicki, Rosa Bete e Ricardo; já encontrávamos periodicamente reunidos para preparar a festa, e muitas ideias novas nos animava e as expectativas para a festa eram grande. O tempo foi passando e o tríduo e festas das comunidades: São Cristóvão e Santo Antônio foram cancelados, e por fim, também se confirmou o cancelamento da festa de nossa Padroeira. Outra questão, é ver pela primeira vez o templo fechado, e em outras ocasiões, comentei que, como era bonito ver que sempre se encontrava alguém em oração na Igreja e agora, a Igreja de portas fechadas. De certo modo, fomos provocados a olhar para nossa igreja doméstica, pois a Igreja está, onde os filhos dela estão. Mas claro que pesa-nos estar longe uns dos outros. Este tempo, que caminhamos pelo deserto, onde, para o bem de todos, fazemos jejum de nossas reuniões, das pastorais, também atividades e encontros, festas e passeios, da nossa auto suficiência da qual achamos que está tudo sobre o nosso controle; agora somos desafiados a redescobrir o que é essencial.

Regional – Padre, muitos questionamentos têm sido feitos sobre a relação entre o plano espiritual com a pandemia. O que o senhor pensa a respeito?
Pe. Joel – “29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30 Quanto a vós, até os cabelos da cabeça estão todos contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais.” Mt 10, 29-31. Este, e em tantos outros momentos, Jesus nos incentiva a ter fé, assim como, quando alguém encontra um irmão sozinho, sem forças e desanimado, lhe diz: você é importante para mim, você não está sozinho; certamente se darmos um tempo, e uma checada nas nossas memórias, veremos que, quantas vezes sentimos que tinha alguém ao nosso lado, e quantas vezes fazemo-nos sentir-se ao lado de tantos. O que eu penso a respeito? Ninguém vive para si, como uma ilha, e este momento que somos convidados ao distanciamento social, nos mostra claramente que não dá para viver cada um no seu quadrado. Aí precisamos pensar na vida em sua integralidade, onde tudo está conectado: a mente e o corpo, eu e você, os animais e toda a natureza, e sim, há aí uma corresponsabilidade. Temos o tempo presente para refletirmos, e mudar as nossas atitudes diante da vida, não quero ser intimista aqui, posso estar errado, mas se passarmos por esta pandemia e continuarmos sendo os mesmos…, temo que esta pandemia seja só a ponta do iceberger.

Regional – Infelizmente, muitos perderam seus entes queridos ou têm algum familiar em leitos hospitalares. Como a fé pode nos confortar e nos direcionar neste momento que alguns chamam até de apocalíptico?
Pe. Joel – O que se pode dizer diante da irmã morte? pode-se medir ou sentir a dor daquele que se despede de quem se ama? Nos esforçamos ao máximo para confortar os nossos amigos e amigas enlutados, mas a dor desse momento, tornam nossas palavras pobres, por que não podem tirar a dor. Nestes momentos só posso olhar para Maria aos pés da cruz, quando se realizava a profecia que dizia que uma espada transpassará a tua alma. Diante do sofrimento da Mãe das dores, quem poderia a consolar? O próprio Senhor a consola: Mãe eis aí o teu filho, João eis aí a tua mãe. Não tirou a dor de sua mãe, mas lhe mostrou que não estava sozinha. Em outra ocasião, quando maria e seus irmãos querendo falar com Jesus, e Jesus pergunta: quem é minha mãe, e quem são meus irmãos? e o Senhor responde a sua própria pergunta: quem faz a vontade do meu pai, esta é minha mãe e meus irmãos. Somos na fé chamados a participar no Seu mistério de morte e ressurreição. A fé também nos prepara para a nossa páscoa, nos empenhando assim, em tudo fazer vontade do Pai, pois sabemos que a nossa morada não é deste mundo.
Regional – Padre, na sua opinião a ciência caminha junto com a espiritualidade?
Pe. Joel – Acredito que o diálogo entre a fé e ciência, acrescentaria muito mais, em ambos os lados. Existe aí sempre um medo presente, como, quando os nossos pais temem que alguém faça a nossa cabeça, dizem: cuidado com as más influências; o medo de que, um tenha a primazia sobre a outra, ou que um provaria a não verdade do outro; não pode ser um cabo de guerra, para ver quem é o mais forte. O tempo vai polindo as nossas relações, acredito que o diálogo entre a fé e a ciência vão evoluir para que possam caminhar juntas.

Regional – Qual é o propósito do sofrimento e o que aprender com ele?
Pe. Joel – Acredito que o sofrimento não tenha um propósito em si; ninguém procura o sofrer, como um propósito. Mas de algum modo ele se faz presente em nossa vida, desde muito cedo. Dizem por exemplo, que a gente sofre ao nascer, mas eu não sei, não me lembro; estávamos lá no aconchego do útero da mãe e de repente somos desafiados a sobreviver em um mundo hostil. Tantos são os motivos que nos fazem sofrer que poderíamos colocar aqui. Mas vou aqui então dizer que sim, podemos dar ao sofrimento um propósito, e a fé de novo pode nos ajudar. Jesus diz que, quem quer ser seu discípulo deve tomar a sua cruz e segui-lo. Ouvi, agora não lembro a fonte, alguém dizer: se alguém não quer sofrer, também não deve amar. Jesus na cruz é o amor levado ao extremo, e este mesmo amor “estarei sempre convosco” encontra-se aí talvez um propósito, de que, com o nosso sofrimento, aliviar o sofrimento de Jesus, como cirineu a carregar a cruz do Senhor. Eu mesmo já encontrei muita gente carregando a cruz de Jesus, quando as vi, não vi a cruz; vi muita fé, muita esperança e uma caridade de desmontar o coração de qualquer um. Jesus diz também que, não devemos levar muita coisas no caminho, os apegos do ter, do ser, do poder, nos causam sofrimentos de ambos os lados: aquele que possui algo e sofre com o medo de perder tudo, e aquele que não tem o que deseja, e sofre com o medo de nunca possuir. aqui poderíamos refletir: quais são os nossos sofrimentos diante da pandemia?

Regional – Para encerrar nossa entrevista, o que o senhor diria a respeito das medidas de prevenção?
Pe. Joel – Eu diria, que nossa comunidade, que pertence a Arquidiocese de Porto Alegre diante da pandemia, tomou com antecedência todas as medidas e orientações de prevenção e respeitando as orientações e decretos municipais. Como disse no início da entrevista: sem novenas, tríduos e festas; também cancelamos a catequese este ano. Algumas preocupações com o pós pandemia, de modo especial com as famílias que não tiveram a possibilidade de uma despedida digna de seus entes queridos, de um velório e celebração da esperança. São situações irrecuperáveis, como lembranças de uma guerra em que estamos em batalha. Precisaremos muito uns dos outros de discípulos e discípulas dispostos a carregar a cruz e assim ajudar a ressignificar os sofrimentos do tempo presente. Deus nos dê sua graça e nos conceda a sua benção.