A tarde do sábado, 06 de novembro, foi de prosa cultural na redação do Portal ClicR, sobretudo a respeito da colonização pomerana no Brasil, por ocasião da visita do comunicador e aventureiro Arnô Stuhr e sua esposa Solineia Thom Stuhr, moradores da cidade de Santa Maria de Jetibá, Estado do Espírito Santo.

A bordo de uma van estilo motorhome o casal capixaba deixou a cidade onde mora, no dia 13 de outubro passado, com o objetivo de conhecer um pouco mais do Rio Grande do Sul, inclusive as regiões Centro Sul e Sul, por onde já passaram no ano de 2017.

A visita à sede do Portal ClicR, em Cerro Grande do Sul, foi intermediada pelo comunicador Marcos Klug Neujahr, locutor e programador da Rádio Ideal FM, da cidade de Chuvisca, e pela sua namorada Érica Bierhals, de Santa Auta, Camaquã, os quais foram anfitriões do casal Stuhr nessa passagem pela região. Também estiveram participando do bate papo a coordenadora municipal da Cultura, Maria do Carmo Trescastro (Mima) e Nilse Osterberg, moradora local de origem pomerana.

Visita à redação do Portal ClicR

A viagem é parte de uma meta pessoal de Arnô que teve início em meados de 2013 desde quando promove ações voltadas ao fortalecimento da cultura pomerana no Brasil, principalmente através da língua falada.

O trabalho teve início pelas redes sociais da internet em 2013, quando inaugurou a Pomerisch Rádio Web e passou a produzir programações culturais em língua pomerana. A partir desta iniciativa o projeto se expandiu com a busca de parcerias com emissoras de rádios em diferentes municípios brasileiros onde existem comunidade pomeranas e em 2016 se iniciou a produção do programa de rádio totalmente na língua pomerana com nome Ümer Lustig (Sempre Alegre) que atualmente é gravado semanalmente ao vivo na rádio web e depois é veiculado em 22 emissoras parceiras espalhadas nos estados do Espírito Santo, Rondônia, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul no formato de 15, 30 e 60 minutos (gravado).

O comunicador faz questão de frisar que se trata de um projeto particular, independente e que não visa retorno financeiro, mas sim a satisfação pessoal. Neste sentido foi criado o subprojeto Pomeranos na Estrada que pode ser acompanhado pelo Facebook, Youtube e Instagram onde o casal publica os detalhes das viagens, os acampamentos, as visitas, as conversas, o dia a dia das comunidades pomeranas, entre outras curiosidades.

Casal Stuhr na casa de Érica Bierhals e Marcos Klug Neujahr

Os viajantes revelam que adoram conhecer novos lugares, pessoas e costumes diferentes.

“Pelo caminho vamos tendo surpresas como em Roque Gonzales e São Paulo das Missões, por exemplo, onde imaginávamos ser apenas uma pequena comunidade pomerana, mas descobrimos muitos pomeranos vivendo por lá. Andamos muito pelo interior e vimos que eles são idênticos a nós”, comentou Solineia.

Na casa de colonos pomeranos na localidade de Santa Auta, Camaquã

Nesta viagem está inclusa as visitas às rádios onde a programação produzida por Arnô é transmitida, a exemplo da Ideal FM, em Chuvisca e a Litoral Sul FM, em São Lourenço do Sul. Eles também devem passar por Camaquã e Canguçu. Já no caminho de volta pra casa está prevista uma chegada em Pomerode, em Santa Catarina, onde também visitarão umas das rádios parceiras.

A previsão de chagada novamente em casa é em meados do natal, data que pretendem passar com os familiares antes de seguirem nova viagem rumo a Rondônia.

 

Santa Maria de Jetibá

Sobre a cidade onde mora o casal informou que fica situada na região serrana do Espírito Santo, onde vivem cerca de 45 mil habitantes, sendo a grande maioria de origem pomerana, que se divide em metade na sede urbana e metade na zona rural.

O clima ameno na região possui temperaturas que variam de 13°C a 15°C, no inverno, e 25°C a 30°C no verão.

A economia municipal tem sua base no comércio, turismo e na agricultura familiar com destaque para a produção de ovos (a maior do Brasil desde 2017) e cultivo de hortifrutigranjeiros, além de lavouras de café. A zona rural é caracterizada por pequenas propriedades, onde a utilização de micro tratores é comum.

Fotos: Hildo Drone Imagens

Arnô explica que os pomeranos tradicionalmente habitam regiões mais serranas e acidentadas geograficamente, por conta do formato que se deu a colonização. Os primeiros pomeranos que chegaram ao Brasil há cerca de 160 anos vieram como diaristas, não possuíam terras e viveram situações de abandono, sem assistência, por isso se uniram em núcleos de comunidades muito próximas, onde prosperaram.

“O pomerano criou resistência e se manteve forte a partir da união justamente por esse abandono de mais de 100 anos esquecido pelo governo. Foi só no final da década de 1960 que foi percebida a força dos pomeranos pela sua capacidade de trabalho e desenvolvimento das comunidades. Na década de 1980 a CEASA (Central de Abastecimento) do Espírito Santo era abastecida com 80% de produtos oriundos de Santa Maria de Jetibá”, revela.

Um pouco da história

“É preciso deixar claro que somos brasileiros”, pontua Arnô, ao mencionar fatos da história da colonização pomerana no Brasil e da extinção da província da Pomerânia, devastada e tomada por alemães e poloneses na Segunda Guerra Mundial (1939 a 1945) que dividiram o território e expulsaram os pomeranos de suas propriedades quando massacraram famílias inteiras. Estima-se que cerca de 500 mil pomeranos tenham morrido nesta saga, quando sua pátria de origem deixou de existir de fato.

Imagem: Divulgação/Nicolas Floriani

Todavia os primeiros imigrantes pomeranos chegaram ao Brasil entre os anos de 1859 e 1872, ainda antes da Primeira Guerra Mundial (1914 a 1918). Eles vieram em busca de novas oportunidades, uma vez que na Europa os tempos eram difíceis.

Deste saldo violento pós-guerras restou a língua falada e os costumes pomeranos preservados entre os colonizadores. Na Europa grande parte da identificação deste povo foi destruída e os que resistiram foram incorporados a outras nacionalidades, se rendendo aos seus hábitos e costumes, inclusive a língua escrita foi perdida.

Arnô remonta também histórias ainda mais antigas que retratam a Pomerânia como uma nação pequena e de um povo pacífico, inserida em uma região de grandes conflitos, na Costa Sul do Mar Báltico. Por estas características os pomeranos sempre foram muito subjugados e sofreram com as ações das guerras ao longo de séculos. O comunicador atribui a este conjunto de fatores a característica retraída e temerosa dos pomeranos atualmente.

“A gente carrega essa força como povo pela identificação. Por outro lado, somos um povo um pouco retraído, desconfiado. Os pomeranos moram sempre em grupos e isso é natural da característica de nossa gente. Está no subconsciente, pois em outras épocas essa união era vital. Dizem que já crescemos com esse medo pelos efeitos das guerras”, explica.

A língua pomerana

O comunicador reiterou que a língua pomerana escrita se perdeu em função da influência alemã e polonesa, contudo destaca que a língua falada nunca mudou e todos os pomeranos falam fluentemente a língua própria e que é totalmente diferente do alemão.

Existe um trabalho de resgate da escrita pomerana desenvolvido por estudiosos da área que estão trabalhando para entender como remonta-la. Dicionários já foram produzidos e vêm sendo utilizados em projetos escolares nas comunidades pomeranas.

Iniciativas de governo como investimentos e infraestrutura turística e o Programa de Educação Escolar Pomerana (Proepo) instituído em 2005, também contribuem uma vez que promovem ações educativas e formativas nas escolas, além da formação de professores, criação de materiais didático-pedagógicos, desenvolvimento de pesquisas e parcerias. Atualmente a língua pomerana já é cooficial em alguns municípios.

“Muitas famílias pomeranas ainda ensinam primeiro a sua língua própria aos filhos, para depois o português. Já a escola acabava por anular isso e gerar uma certa vergonha na criança. Esse trabalho de resgate vem pra combater esse preconceito e fortalecer a cultura. Neste sentido acreditamos que o nosso trabalho voluntário pelo rádio e pela internet também contribuiu, na medida em que as pessoas vão perceber que existe uma programação em pomerano e se sentirem valorizadas, incluídas”, comenta Arnô.

Impulsão da autoestima

Questionado sobre quais motivos o teriam influenciado a desenvolver o projeto pomerano, Arnô pontuou que entre eles está a necessidade de impulsionar a autoestima do povo pomerano.

“Me incomodou o fato de o nosso povo trabalhar muito e normalmente não gastar o fruto do trabalho em vida, pois acaba juntando bens pela força e vontade de trabalho, mas não costuma gastar em coisas que não sejam bens materiais e também o fato de eu perceber (minha opinião, sem dados para comprovar) o alto índice de suicídio, que pode ser causado pela desinformação, depressão, solidão, acuamento, entre outras questões. Então pensei em fazer algo para ajudar a combater isso. Como já mencionamos, nosso povo é muito retraído. Tem um exemplo a grosso modo que eu uso/vejo: ‘Se eu trair um mineiro com a esposa dele, possivelmente ele me mate. Se eu trair um pomerano com a esposa dele, possivelmente ele se mate’. O pomerano tem vergonha de perder a esposa, vergonha de quebrar financeiramente, vergonha de dar errado na vida”, exemplifica o comunicador.

Casal Arnô Stuhr e Solineia Thom Stuhr

Arnô considera que com as parcerias com as rádios locais para que inclusive as comunidades do interior sejam atingidas, o projeto tem um maior alcance e produz melhores resultados. A popularização da internet nos dias atuais também tem contribuído para o trabalho.

“A função principal é dar um apoio para que o pomerano seja um povo mais esclarecido, mais firme talvez nas decisões, menos influenciável, enfim. Precisamos quebrar preconceitos por meio da informação. São os nossos programas falando em pomerano, os vídeos gravados nas propriedades mostrando a rotina das comunidades, tudo de maneira simples e informal que acreditamos que ajudam a fazer a diferença e eleve a autoestima da nossa gente”, concluiu.

 

A Bíblia Sagrada em Pomerano

Outro subprojeto idealizado pelo comunicador e que está sendo desenvolvido é a tradução da Bíblia Sagrada para a língua pomerana. Este também é voluntário e sem fins lucrativos.

O novo testamento deve ficar pronto em dezembro e será disponibilizado em canais na internet e também em mídias como CD, DVD e Pen Drive, no maior número de cidades possível, onde há colonização de pomeranos. Também será enviado aos interessados via correio cobrando apenas a mídia e o custo de envio. Os pedidos devem ser feitos pelo WhatsApp 27 99626-1460.

Arno Stuhr traduz a Bíblia Sagrada para língua pomerana

A tradução é feita de forma simplificada e simultânea, com leitura e interpretação a partir da Bíblia Sagrada na versão ‘Linguagem de Hoje’ (Edição de 1988 da Sociedade Bíblica do Brasil) e não contém opiniões do narrador, que se limita a complementar o mínimo possível alguns trechos para os quais não há tradução clara na tradução do texto, sendo inclusive utilizadas algumas palavras em português para melhor entendimento quando necessário, visando ser o mais fiel possível ao contexto do texto.

“Faço a tradução principalmente para que o pomerano simples, que em não poucos casos não sabe ler, possa ouvir e entender o texto da Bíblia Sagrada de forma clara e compreensível na sua língua materna”, explica.

O Velho testamento terá a tradução iniciada em janeiro de 2022 e deverá levar cerca de dois anos e meio para o término, pois a proposta é ler, editar e postar um capítulo por dia nas redes sociais e no final também disponibilizar em mídias como CD, DVD e Pen Drive.

“Faço da forma que consigo sem, digamos, ‘uma equipe de intelectuais’ por trás do trabalho, mas creio que será muito útil, pois como eu disse, faço o possível para ser o mais fiel ao contexto do texto, haja vista que a tradução tem que ser feita da forma de: ler em português, interpretar e narrar em pomerano”, complementa.

Canais de distribuição na internet:

Site: abibliaempomerano.com.br

Canais “A Bíblia em Pomenano” no Youtube, Facebook e Telegram

Radio web: BijbelStuun (Para Android)

Grupos de WhatsApp (solicitar inclusão pelo 27-99626-1460)