Para esta nova geração alguns já ouviram falar dos tradicionais Kerbs, muitos ainda não sabem o que é, só quem viveu este tempo que parece não muito distante, é que sabe realmente a alegria que esta palavra significa.

Para iniciarmos esta matéria o Regional fez algumas pesquisas relembrando alguns fatos em nossa região que nos remete aqueles bons tempos.

 Mas afinal o que é Baile Kerb?

Com certeza uma pessoa com mais idade vai saber lhe explicar bem melhor e com mais emoção principalmente se participou de algum, mas é uma festa popular de origem alemã, trazida para o Rio Grande do Sul pelos imigrantes por volta de 1828, e daqui esta a idéia passou para outros estados. O termo significa festa de inauguração da igreja e representa a confraternização dos familiares. Consiste numa missa ou culto e na celebração feita nos salões de festa. Pode atingir até três dias de festividades e compreende desde confraternizações até grandes bailes com três dias seguidos.

O que significa a palavra Kerb?

Um dos significados da palavra Kerb é colheita, ou seja, é a festa da colheita. Algumas comunidades consideram também uma festa em homenagem à inauguração da igreja ou simplesmente uma quermesse. O baile é um espaço de sociabilidade, diversão e fortalecimento dos laços da cultura alemã.

Alguns pesquisadores afirmam que o nome deriva de Kircheeinweihfest, ou seja, festa de inauguração da igreja; outros afirmam que vem dos termos Korb e Kõorbe — “cesto”, em alemão —, cujo plural seria kerb. Existem muitos significados, porém nenhum é oficial.

 

O centenário salão Schmidt

Judiado pela ação do tempo o velho salão Schmidt, na localidade de Dobrada, em Sertão Santana, hoje serve como galpão. Nem parece o mesmo de quando foi inaugurado há 120 anos e que sediava os mais divertidos e glamorosos eventos da região.

O regional esteve conversando com o casal Lino Schmegel e Liria Schmit,  ela filha de Teobaldo Schmidt que muitos Kerbs organizou em seu salão, residem ao lado do salão.

Segundo relatos de Lino muitos bailes ele ajudou seu sogro a organizar iniciando em 1963, desde preparos antes dos eventos, como nos bailes, já dona Liria lembra que sempre ajudou  e acompanhou seus pais, lembra de carnear galinha, porcos, fazer linguiça, fazer as cucas com sua mãe Helga e o kartoffelsalat (salada de batatas), pois não se comprava nada como hoje em dia era tudo feito pelas famílias.

Entretenimento

Lino lembrou que ao amanhecer o dia muitos iam embora voltando na noite seguinte, já os músicos sempre ganhavam pouso ou na casa dos proprietários ou em casa de vizinhos, outro fato bastante comentado que Lino lembrou foi a questão das garrafas escondidas, havia uma garrafa escondida na rua e uma a vista dentro do salão, a pessoa que achasse a garrafa escondida na parte de fora do salão ganharia a outra que estava dentro e ainda pagava um barril de chopp para turma.

 Haveria molas no assoalho dos Schmidt?

Uma dúvida que muitos se perguntam até hoje ou já ouviram falar que o assoalho do salão tinha molas, o casal destaca que não, e explica que quando tinha bailes era retirado os calços dos caibros que sustentavam o assoalho,  fazendo  as tabuas levemente se balançar dando a sensação que tivesse molas em baixo.

Bandas

Foto de banda convidando a comunidade para o Kerb de domingo, ao lado o prédio da antiga casa de cultura localizada no centro de Sertão Santana, não se tem uma exatidão do ano em que foi tirada problematizável ente 1940 a 1950

Lino explica que os músicos já do seu tempo vinham das cidades de Novo Hamburgo, Estrela, entre outras, destacou a Banda Raab, Banda Teifke, Banda Schiffer, Banda Huff, dentre muitas outras e frisaram que todas elas eram bandas típicas alemãs.

Este salão marcou muitos moradores e deixou saudade,  dona Liria lembra que havia eventos que tinha muita excursão, por serem muito famoso naquele tempo, chegava a lotar o salão, principalmente nos Kerbs que eram realizados nos meses de maio e novembro, iniciando no, sábado,  domingo a tarde e segunda-feira, e um detalhe muito importante para levarmos em consideração é que o meio de transporte mais comum eram os cavalos, carroças, charretes e talvez um que outro carro, seu Teobaldo que era ferreiro,  já tinha um espaço destinado para os animais como se fosse um estacionamento, já os últimos eventos sim as condições já eram um pouco mais favorável no que se refere a transporte, a banda no domingo a tarde convidavam a comunidade para prestigiar mais um dia de kerb em cima de um caminhão antigo pelas ruas da comunidade.

O meio de transporte mais usado na época ainda eram as carroças e cavalos

Iluminação

Mas as primeiras festas ainda segundo Liria e Lino eram iluminadas com luz de lampião os chamados “Aladins”estes espalhados pelo interior do salão, contudo Lino lembra que muito se usou o gerador da Juventude de Sertão, outro fator que auxiliava na iluminação era uma roda d’ água que tocava energia para iluminar o interior da festa. Outro detalhe dos eventos de Kerbs é que a pessoa pagava a entrada e se quisesse jantar, era outro preço separado, no qual todos se acomodavam em uma grande mesa e saboreavam as cucas linguiças e demais pratos típicos produzidos pelos organizadores, destacando sempre o ambiente bem familiar que era.

 

 Curiosidades

Segundo Lino no início das bailes bem antes de 64, tinha muito racismo, de cor morena não entrava, assim como em muitos outros salões da época. Outra curiosidade que o casal explicou foi o fato da moça não poder dar “Carão”, ela não podia dizer não ao rapaz que puxasse ela para dançar, agora se o rapaz quisesse dançar com a moça pela segunda vez ela podia dizer que não, mas ao menos uma músicas as moças eram obrigadas a dançar.

Lino e Liria pais de seis filhos, destacam que tem lindas recordações do salão, como seu casamento, nascimento do primeiro filho e  casamento de um filho.

Se conheceram e se casaram no Salão Schmidt

Dentre os muitos namoros que surgiu bem como casamentos que ocorreram no salão, o Regional conversou com um casal que se conheceu em um Kerb em 1962 e sete anos depois em 1969 vieram a se casar no mesmo salão.

Trata-se de dona Marli e Valdir Gimenes, hoje moradores da localidade de Dobrada, que este ano comemoram 51 anos de casados.

Dona Marli lembra que naqueles tempos era muito diferente, se tinha um respeito muito grande os casais dançavam meio separados com os corpos afastados, e foi num desses kerbs de 1962, que Valdir a tirou para dançar e ela confessou que estava aguardando ele a tirar para dançar, desta dança surgiu o namoro, casamento e  51 anos de casados e três filhos.

“Era tudo lindo, eu muitas vezes ajudei dona Helga com alguns preparativos da janta, ajudávamos com prazer sem nada em troca…” lembrou com carinho de um tempo bom em que viveu dona Marli.

 

Ternos para os Kerbes

Outro fato importante é que praticamente todos os homens usavam ternos e  fatiotas e muitos destes ternos foram feito sob medida por Irineu Colisseli que atua no ramo a 67 anos, Dentre muitos fatos históricos que Irineu nos relatou, uma tesoura com mais de 100 anos que ganhou de seu avó o acompanha nos dias atuais sedo uma peça de grande valor para o alfaiate, a tesoura veio da Alemanha.

Irineu, que desde os 20 anos faz terno, lembra que muitos frequentadores o procuravam para fazer seus ternos, para participarem dos Kerbs , outro detalhe é  que na época não existia opções  de  roupas como hoje se encontra em lojas de confecções.

 

Fotos do kerb de Maio de 1964

 

Foto Festa do Colono década de 50

Por: Figura (Gildomar Avila Medeiros) Clicr