4ª Coxilha Instrumental ocorreu em paralelo a 41ª Coxilha Nativista

A 41ª Coxilha Nativista, que ocorreu nos dias 28, 29, 30 e 31 de julho em Cruz Alta, teve em paralelo a realização da 4ª edição da Coxilha Instrumental, com shows na abertura e no encerramento de cada noite, dando espaço para nomes consagrados do gênero e, também, para os novos talentos. Renato Borghetti, Lucio Yanel, Marcello Caminha, Leonel Gomez e João Vicenti, do grupo Nenhum de Nós, foram alguns dos artistas que fizeram parte da mostra, que teve transmissão online diretamente do palco do Clube Arranca.

O projeto tem recursos da Lei de Incentivo à Cultura, do Governo Federal, em parceria com a CCGL que é, pelo quarto ano, a patrocinadora oficial da Coxilha Instrumental, responsável pelos espetáculos do festival, bem como pela estrutura do evento.

O festival fez um resgate do tradicionalismo, no ano em que o município de Cruz Alta completa 200 anos. As lives foram transmitidas através da Página Oficial da Prefeitura Municipal, no Facebook.

 

Renato Borghetti faz da gaita, o livro das crianças em sua Fábrica de Gaiteiros

Divulgado na página do Facebook “Coxilha Instrumental”, dia 30 de julho a matéria feita pelo jornal Diário Serrano que deu destaque ao grande acordeonista Renato Borghetti, que foi atração da terceira noite da 4ª Coxilha Instrumental.

Um dos músicos brasileiros com carreira mais consolidada no exterior, Renato Borghetti voltou ao palco da Coxilha Nativista após 11 anos para se apresentar na 4ª Coxilha Instrumental o espetáculo que é aplaudido por todos os locais por onde passa. Seja em Festivais ou na Europa onde possui fá clube cativo. Em entrevista aos jornalistas Fernando Baptista e Djovana Souza da equipe de comunicação do “Coxilha Instrumental” ele falou da carreira e do Projeto Fabrica de Gaiteiros e da música instrumental.

Foto: Prefeitura de Cruz Alta

Foto: Prefeitura de Cruz Alta

CI – Renato como está a tua expectativa em voltar ao palco de um grande festival, após quase dois anos de interrupção de eventos, devido a pandemia, mesmo que ainda sem público, mas reunindo cantores, instrumentistas, intérpretes, e trabalhadores da Cultura?

RB –    Bueno. Depois desse período difícil, não só para a arte e a cultura onde todos os setores tiveram problema com a pandemia, é muito legal voltar aos palcos e em um grande festival, como é a Coxilha Nativista. E eu tenho um carinho especial por este festival desde a primeira edição onde participei, na segunda e depois fui participando em shows com diversas formações. E agora passando essa fase mais difícil da pandemia, ainda temos que ter muito cuidado, mas podemos nos encontrar um pouquinho mais, com segurança, e palco da Coxilha está possibilitando isso. E eu só posso agradecer a organização por trazer este trabalho instrumental dentro do Festival e possibilitar a vinda de tantos artistas neste momento.

CI – Relembrando 1984 a 1988. O disco Gaita Ponto é o disco instrumental mais vendido no Brasil. Único disco de ouro no da música instrumental no país até hoje. Em seguida veio o segundo LP – Renato Borghetti – em 1985. E três anos depois a tua apresentação no Free Jazz no Rio de Janeiro. Tudo muito ligeiro. Você imaginava um sucesso de público e crítica tão rápidos?

RB – Em 84 eu resolvi gravar um disco em um momento que era muito difícil isto. Ainda estávamos no inicio da parte técnica dos estúdios e os grandes ficavam em São Paulo e Rio de Janeiro. Aqui no Rio Grande do Sul isto iniciava. E eu gravei não para ter um trabalho individual e iniciar uma carreira própria. Eu sempre estava tocando com outros artistas, cantores músicos e fiz apenas para registro, para mostrar para os amigos realizei toda a produção independente. Acabei distribuindo para um selo que dava uma divulgação forte e isso ajudou muito. Eu segui até o segundo LP sem ter uma banda própria, e o primeiro disco de ouro da música instrumental eu recebi sem saber que estava fazendo um disco instrumental. Para mim eu estava com um trabalho de gaita. A vendagem surpreendeu a crítica, a gravadora e a mim. Eu devo muito ao Gaita Ponto.

A partir dai as coisas foram acontecendo sem programar, convite para o Free Jazz internacionais, um trabalho sólido no Brasil, o segundo LP com a participação do Sivuca. A gaita Ponto me proporcionou e proporciona muitas coisas bonitas.

CI – A Coxilha Instrumental chega a sua 4ª edição. Qual a importância deste espaço para o artista?

RB – A música instrumental sempre teve associação a um publico que gosta de um trabalho mais elaborado. Hoje com a facilidade da informação, as pessoas tendo mais acesso, isso democratiza um pouco mais. E o maior exemplo que eu vejo é o palco da Coxilha Nativista, onde passam diversos estilos de música, e a instrumental pode estar presente. Eu lembro da primeira Coxilha no Cine Rio e depois no Ginásio que é um espaço grande, aberto, e o principal que eu vejo o público tendo curiosidade em relação a música instrumental. Isso é mais um passo importante que a Coxilha deu, abrindo este espaço é muito oportuno e todos os músicos agradecem a iniciativa.

Eu faço um registro fundamental de uma parceria que tive com o cruz-altense Arthur Bonilha que tive a honra de conviver. E o palco da Coxilha foi onde a gente mais curtiu tocar. Até hoje as pessoas falam do show que fizemos em 2010, me mostram uma figura maravilhosa que até hoje faz muita falta.

CI – Renato você tem um projeto – Fabrica de Gaiteiros – que está cada vez mais espalhado pelo Rio Grande do Sul e fora dele. Conte um pouco sobre ele.

RB – Há uns 10 anos atrás, a ideia era anterior, eu idealizei este projeto. É uma fabrica de gaitas, nós fabricamos o instrumento 100% dele, sem terceirizar nada. Porque a pessoa passa entender como é a construção do acordeon, didaticamente. A fábrica é toda envidraçada, permitindo que os visitantes vejam, acompanhem o processo. A diferença as demais fábricas é que após o instrumento ficar pronto, nós não o vendemos. Toda a produção vai para as escolas para o aprendizado de crianças de 7 a 15 anos em aula que nós oferecemos gratuitamente. Os instrumentos eles levam para o estudo em casa e depois devolvem para outro colega como se fosse um livro de biblioteca.

A ideia surge poque quando eu começo a tocar ainda existiam algumas fabricas no Sul do Brasil. Em seguida pararam, e em um momento não existia nenhuma no Brasil. Isso me acendeu um sinal vermelho de que a médio e longo prazo a sanfona como chamam no nordeste, a gaita aqui para nós, tão emblemática e representativa da música brasileira, corria um sério risco. Primeiro porque é um instrumento caro, importado, e mesmo reformados não é acessível para muitos. Fiquei preocupado com a possibilidade de falta de gaiteiros, professores e a fábrica teve início. Primeiro em Guaíba, hoje em Barra do Ribeiro, mais 11 cidades no Estado e duas em Santa Catarina. Atendemos 500 alunos anualmente e eu tenho grande carinho, pois é o meu projeto de vida.

CI – Renato você inspirou, e inspira até hoje, uma série de jovens músicos a se aproximarem da gaita e por consequência da música instrumental. Como está a música instrumental hoje no Brasil em termos de renovação e produção musical?

RB – Eu fico feliz que as pessoas que gostam da gaita, da música instrumental, tenham meu trabalho como referência. A música instrumental através da velocidade da informação, pois hoje você pode saber o que está acontecendo na música em qualquer lugar do mundo, junto com outros gêneros musicais se tornou mais acessível. Antigamente muitas pessoas não gostavam da música instrumental por puro desconhecimento, porque elas não tinham essa possibilidade e não havia a busca. Então ficava direcionado a um público que ia atras para ouvir. Lembro que haviam programas específicos de música instrumental. Hoje ela está em todos os espaços, os instrumentistas são mais reconhecidos pelo público, mídia e críticos.

E o Brasil não é só um belíssimo exemplo de futebol, pis tropical, carnaval e festa. O Brasil talvez tenha como maior património sua cultura e entre seus elementos sua música que é respeitada e conhecida em todo o mundo. E o sul do Brasil é sinônimo de qualidade na música Regional, instrumental, rock, jazz, música clássica. O Rio Grande do Sul tem essa característica de ser um celeiro de grandes artistas, reconhecidos no mundo, desde Yamandu Costa, Neuro Junior, Luciano Maia, Ediberto Bérgamo, professores como Gustavo Almeida de Blumenau, que venceu o concurso mundial de Acordeon na China e na Russia nas categorias juvenil e adultos. Jovens acordeonistas como Bruno Motitz. Temos uma nova geração muito talentosa e a Fabrica de gaiteiros vai contribuir para isso.

Link do vídeo divulgado na página da Prefeitura de Cruz Alta, a participação de Renato inicia após 4h10min de programação