A história do transporte público de passageiros sobre rodas é mais antiga do que se imagina. Registros dão conta de que surgiu em 1662, quando o matemático, físico e inventor Blaise Pascal inaugurou um serviço público em Paris, na França.

O primeiro serviço de ônibus efetivo no Brasil, iniciou no Rio de Janeiro em 1838, com dois ônibus de tração animal. A iniciativa foi do empreendedor francês Jean Lecoq, que criou a Companhia de “Omnibus” (daí o nome ônibus).

O ônibus chega à Fortaleza

Foi no início da década de 1930 que o ônibus chegou a Cerro Grande do Sul (na época Fortaleza, interior do município de Tapes), primeiramente com o serviço oferecido pela empresa de Leocádio Garcia, com linhas para Tapes e Porto Alegre.

Viajar pelo interior transportando pessoas naquele tempo era quase um ato de bravura considerando a precariedade das estradas e a ausência de tecnologia. A viagem de Fortaleza até Porto Alegre podia levar um dia inteiro, chacoalhando dentro dos veículos de pouco conforto e muitas vezes enfrentando atoleiros em dias de chuva.

Ônibus da empresa Garcia estacionado na Av. Cel. Arthur E. Jenisch. À frente do desfile a cavalo o morador local Max König. (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

O trajeto da comunidade a Porto Alegre nas décadas de 1930 e 1940 também era diferente do atual, uma vez que antes de 1950 ainda não havia sido aberta em sua totalidade a BR-2 (atual BR 116).  Os veículos seguiam pela estrada estadual ERS-350, margeando a Lagoa dos Patos passando por Tapes e seguindo para Barra do Ribeiro, de onde seguiam em uma embarcação pela Lagoa dos Patos para Guaíba e de lá também seguiam viagem em uma barca para a capital.

O início do trânsito na parte da BR-116 compreendida entre as cidades de Guaíba e Camaquã, iniciou em 1953 depois de concluídas algumas das pontes sobre os arroios, porém não em todos os cursos d’águas, que só receberam pontes quando a rodovia começou a ser pavimentada, em 1957. O asfalto neste trecho foi inaugurado oficialmente em 1961.

 

Nascem as empresas Zenker em Cerro Grande

Foi na década de 1950 que os passageiros da Vila Cerro Grande, 3º distrito de Tapes, começaram a ter mais opções de transporte, inclusive com linhas para as comunidades de São José e Pessegueiros, no interior do município, a partir da criação da empresa Zenker, no ano de 1951, de propriedade de Theodoro Zenker.

Theodoro iniciou a vida na agricultura, na localidade de Passo da Venda, hoje município de Sentinela do Sul.  Incentivado na época pelo prefeito municipal de Tapes, Hermínio José Soares, o agricultor decidiu investir no transporte público coletivo que foi o início de sua trajetória como empresário.

Enio Zenker, filho de Theodoro, conta que ainda candidato, Hermínio buscou apoio político de seu pai na região com a promessa de retribuir a gentileza em forma de investimentos em estrutura viária e apoio logístico.

“Tu me ajudas nas eleições por aqui que depois nós vamos abrir estas estradas e tu compra uma camionete pra carregar esse povo”, teria dito o candidato a prefeito.

Já eleito, o prefeito cumpriu a promessa e com mão de obra braçal de dezenas de homens munidos com pás e mariposas (espécie de scraper puxadas a boi) abriu a estrada de Passo da Venda até localidade de Capivaras.

Então, no ano de 1951, Theodoro adquiriu a primeira camionete e conseguiu uma licença municipal para fazer uma linha entre Cerro Grande e Tapes. Ele ainda seguiu no cultivo do arroz por dois anos e quem fazia o transporte era seu filho mais velho, Hélio Zenker.

Casal Theodoro e Otília (ao centro) com os filhos Celia, Helio, Osmilda, Alda, Renilda e Ênio (da esq. p/ dir.) (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

A aposta deu certo e já no segundo ano Theodoro precisou adquirir um novo veículo para dar conta da demanda crescente de passageiros.

“Lembro que as pessoas andavam até pelo lado de fora da camionete, dependuradas nos estribos ou agarradas na escada atrás, então o pai viu que ia precisar comprar um ônibus maior”, lembra Renilda Zenker.

Paralelo a isto Theodoro buscava junto ao DAER a concessão de uma linha de ônibus para Porto Alegre, que foi conquistada em 1953, quando então a família se mudou para Cerro Grande para se dedicar de vez aos negócios.

“Eu lia várias vezes para o pai o livrinho de leis que ele havia buscado no DAER. Ele tinha pouco estudos e essa era a forma que ele entendia melhor as coisas, pois queria ter certeza de que estava fazendo tudo certo”, conta Renilda.

Casal Theodoro Zenker e Otília (ao centro) com filhos, filhas, noras, genros, netos e netas, em frente a garagem da empresa de ônibus na Rua Dr. Henrique Vilanova. (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

A camionete e posteriormente o ônibus da empresa Zenker que fazia a linha para Porto Alegre não podia chegar até a sede da vila, pois a concessão não dava esse direito, então o ponto de embarque e desembarque de passageiros era junto ao arroio Velhaco, de onde seguia para São José ou Pessegueiros, em dias alternados, onde os funcionários pernoitavam para voltar no dia seguinte.

“A gente fornecia os uniformes e o café da manhã aos funcionários e durante muito tempo lembro de levar até o ônibus, ali no Velhaco, as roupas limpas e o leite que tirávamos das vacas”, conta a filha mais velha Alda Zenker.

 

Viagens sem fim

As viagens da Zenker para Porto Alegre iam em um dia e voltavam no outro, pois não dava tempo de fazer o trajeto de ida e volta no mesmo dia. Na localidade de Araçá, no armazém de José Vencato, era um ponto de parada de cerca de 20 minutos para os passageiros que quisessem tomar um café ou usar o “banheiro de campanha”.

“Contando quase não dá para acreditar que saíamos de São José às 5h45min pra chegar em Porto Alegre entre 13h30 e 14h. A gente carregava sempre uma pá e um jogo de correntes pra colocar nos pneus, porque quando chovia com certeza ia atolar”, lembra.

Orlando Zenker e Castelar, motoristas da empresa Zenker junto ao ônibus que fazia a linha Cerro Grande/Tapes. (Foto: Acervo da família)

Ele relata de uma vez que precisou cruzar com o ônibus lotado de passageiros o Arroio Ribeiro durante uma enchente (não havia ponte na época).

“Amarrei uma lona plástica na frente do ônibus para não entrar água no motor, engraxei os cabos do distribuidor e as velas para não encharcar, virei o coletor de ar para trás pra não encher d’água e acelerei tudo o que deu. Quando descemos a barranca a água deu no para-brisas. A sorte que o arroio não era tão largo e logo começamos a subir e eu pude enxergar de novo”, detalhou a façanha.

Ênio lembra também quando passou pelo primeiro quilômetro de asfalto da BR-116, no final da década de 1950 e comemorou quando a empresa chegou a fazer duas viagens para Porto Alegre, no mesmo dia e com o mesmo ônibus.

Ônibus da empresa Zenker que operou já na década de 1980. (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

A melhoria da estrutura viária na região impulsionou o ramo de transportes públicos coletivos e a empresa Zenker cresceu e comprou diversos ônibus, incluindo linhas novas para Tapes e Porto Alegre. Na década de 1960 a empresa Garcia passou a ser administrada por Telmo Garcia, que formou família no município, contudo não evoluiu e já no início da década de 1970 deixou de operar.

Outra empresa que chegou a operar em Cerro Grande foi a Sonemann que fazia linha para Camaquã, concessão que posteriormente foi adquirida pela Zenker. No ano de 1988, quatro anos após a morte de Theodoro Zenker, a empresa de ônibus Zenker foi vendida para a Frederes Turismo.

 

O posto de combustíveis

Para abastecer seus ônibus Theodoro buscava gasolina de toneis na distribuidora e logo passou a comercializar o combustível em latas na sede da empresa, onde mantinha a oficina dos ônibus. O comércio de gasolina, apesar de fora dos padrões, já era comum na localidade, no armazém de Frederico Raab (espécie de atacado da época). A prática era inadequada. Então a família Zenker consultou a Ipiranga sobre os trâmites para instalar uma bomba e logo o negócio deu certo. No ano de 1967 nasceu a Abastecedora Zenker, ainda hoje administrada pela família, com a mesma bandeira, no mesmo local, no centro da cidade.

Primeiras bombas da Abastecedora Zenker, inaugurada em 1967, no mesmo local onde é hoje. (Foto: Acervo da família)

Nos anos seguintes a família Raab também investiu no ramo de combustíveis e inaugurou o segundo posto na cidade.

 

O bar que virou “estação rodoviária”

As primeiras passagens de ônibus em Cerro Grande foram vendidas já no final da década de 1940, pelo comerciante Manoel Garcia, em seu armazém onde atualmente é a residência de Renilda Zenker, na Rua Dr. Henrique Vilanova.

O dono do estabelecimento faleceu, então outro comerciante local, Roberto Zenker (primo de Theodoro Zenker) começou a prestar o serviço de venda de passagens no antigo Bar Central, famoso por servir o melhor croquete da comunidade. A fama da iguaria feita por dona Amanda Teifke Zenker se propagou através das linhas de ônibus que circulavam na região e passou a ser apreciado por muitas pessoas. Outra característica do local, divulgada pelos frequentadores da época, era jeito ranzinza de Roberto, ácido e pouco simpático ao tratar os clientes.

O prédio do antigo Bar Central, na Av. Cel. Arthur E. Jenisch, no centro da cidade, ainda conserva sua fachada com poucas modificações. (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

Uma curiosidade é que o bar que se tornou popularmente estação rodoviária por muitos anos, na verdade nunca teve concessão oficial para operar integralmente como tal, mas apenas para venda dos bilhetes, entretanto era na rua em frente ao local que os ônibus encostavam para embarque e desembarque.

O casal Amanda Teifke e Roberto Zenker (Foto: Acervo Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul)

Num povoado pequeno, numa época de menores recursos logísticos e tecnológicos a “estação rodoviária” servia como apoio às pessoas que viajavam carregando bagagens, além de ser um ponto de encontro entre muitas pessoas.

Usuários do transporte público coletivo na Av. Cel. Arthur E. Jenisch por ocasião da chegada dos ônibus na vila Cerro Grande, na década de 1980. (Foto: Acervo da família)

Após a morte de Roberto, seu filho Áureo Zenker seguiu administrando o local até o ano de 1988, quando abriu mão do serviço. Já no ano de 1989 o casal Lino Irian Wölfle e Alda Zenker Wölfle (filha de Theodoro Zenker) conseguiu junto ao Daer a concessão para explorar o serviço por 20 anos. A família seguiu administrando o serviço até este mês de março/2021, quando a empresária Lucimara Zenker Wölfle anunciou que a estação rodoviária iria parar de operar em 1º de abril.

 

Balcão do antigo Bar Central está exposto na Casa da Cultura de Cerro Grande do Sul

Fontes pesquisadas:
=> Livro “A Trajetória” – escrito por Martins
=> Daer/RS
=> Casa da Cultura de Cerro Grande Sul
=> História oral (familiares e moradores)
=> https://cittati.com.br (pesquisado em 25/03/2021)