Após um final de semana polêmico com direito a vídeo nas redes sociais o prefeito Gringo, de Cerro Grande do Sul, utilizou a tribuna livre da Câmara de Vereadores na noite desta segunda-feira, 13 de setembro, para se dirigir à população sobre o assunto.

No domingo (12) a tarde, durante os Festejos Farroupilhas, o prefeito protagonizou algumas cenas desajustadas quando visivelmente alcoolizado caminhou pelas ruas da cidade, puxando um cavalo e proferindo palavrões aos seus adversários políticos e a todos de uma forma geral que não o apoiaram na disputa eleitoral.

A ação foi registrada em um vídeo por um de seus apoiadores que o acompanhava e postado em redes sociais. Nas imagens o prefeito repete por diversas vezes a palavra vagabundo ao se referir a quem não o apoia. Também classificou alguns, embora sem dar nomes, com palavrões ainda mais pesados.

“Esses vagabundos que querem derrubar o prefeito mais honesto do mundo[…] Quem é contrário é vagabundo que não sabe o que é segurar uma cidade de pé[…] Seus vagabundo contrário, seus vagabundo contrário[…] E querem ir na câmara de vereadores pra derrubar? Coitado de vocês do contra. Vão procurar sarna na pu** e o diabo que não sei onde eles tão[…] porque aqui tem homem. Aqui tem prefeito. Aqui não tem corrupto, vagabundo nem filha da pu** que vai me condenar”, bradou o prefeito em alguns dos trechos de sua fala.

A publicação que circulou nos principais grupos de redes sociais do município gerou muita indignação em grande parte da população e reações das mais diversas, sobretudo de repúdio aos atos do prefeito, embora uma parcela ainda o tenha defendido.

O que disse o prefeito na câmara

Na tribuna da câmara municipal, nesta segunda-feira (13), o administrador municipal iniciou sua fala pedindo desculpas pelos palavrões ditos no domingo (12). Contudo explicou que não se referiu a ninguém especificamente e que as expressões foram reações exageradas aos ataques que vem sofrendo.

“Em relação a ontem, que eu até admito que pro nosso município não ficou muito bonito, mas eu venho sendo cobrado, carregado, há muito tempo desde que eu entrei, e eu me transbordei e botei pra fora palavras que não deveria ter falado” admitiu Gringo.

Na sequência o prefeito subiu o tom de voz e socou o púlpito quando disse lamentar ter ouvido alguém dizer na câmara que é vergonha ter um prefeito como ele. Em seguida falou do grande volume de dinheiro que costuma carregar consigo, afirmando ser declarado. Relacionou uma série de ações do governo municipal, incluindo implantação de lixeiras, reformas e reconstruções de pontes, economia no caixa municipal e questionou se isso também seria vergonha.

O prefeito pautou sua fala na palavra vergonha e seguiu dizendo estar sendo perseguido por adversários políticos tendo respondido a sessenta denúncias nos seus oito meses de mandato. Depois questionou o trabalho dos vereadores pelo que considerou excesso nos pedidos de informação enviados ao Executivo e falta de projetos.

“Eu tenho vergonha de quem não tá mandando pra prefeitura projeto bom pro prefeito realizar a pedido dos vereadores. De alguns vereadores. Enquanto pedem explicação. Parem e peçam a nós que nós vamos evoluir e não só cobrança. Disso, daquilo e daquilo lá”, exemplificou.

Gringo lamentou também não poder ser questionado no plenário da Casa de Leis, dizendo que gostaria de responder a perguntas do público e sugeriu que a Câmara Municipal mude a lei neste sentido.

Reafirmou sua honestidade quando se referiu ao mandado de busca e apreensão expedido pelo Supremo Tribunal Federal e cumprido recentemente pela Polícia Federal na prefeitura e em sua propriedade particular, quando não restaram apreensões ou prisão. Acrescentou que vai investigar as antigas administrações municipais.

“Eu sou o homem mais ficha limpa que tem no Brasil porque mandaram pelo STF me prender. Veio ordem de prisão se houvesse irregularidade e não acharam nada. Que vergonha que no passado vai ter muita irregularidade que agora eu vou mexer na caixa preta”, afirmou.

Como se manifestaram os vereadores

Já no final da sessão ordinária, durante o horário livre, alguns vereadores inscritos se manifestaram sobre a fala do prefeito.

A primeira a usar a palavra foi a vereadora Karen Eymael (PTB) dizendo que ao ter tomado conhecimento do que o prefeito havia dito no domingo se sentiu ofendida.

“Eu me senti realmente ofendida, mas nunca intimidada porque aqui eu estou pra representar, não quem votou em mim ou no partido que eu apoiava, mas sim toda a comunidade sulcerrograndense. Eu pergunto pra vocês aqui se alguém já viu tamanho absurdo em nosso município ou em qualquer outro município vizinho? Falta de respeito. É a terceira vez que eu venho nessa tribuna[…] pra pedir respeito pela população, porque com certeza como pessoas públicas que somos vamos ser criticados sim, mas o nosso papel é dar exemplo”, colocou Karen.

A vereadora disse que foi procurada por diversas pessoas pedindo que a câmara tomasse providência sobre o que vem ocorrendo no município e classificou que o caos está instalado na cidade. Ela rebateu a tentativa de o prefeito intervir no trabalho dos vereadores.

“Eu também não admito que o senhor venha aqui dizer como cada um de nós tem que trabalhar[…] Entenda que oposição não é picuinha, não é perseguição[…] Se o senhor não queria o trabalho do Executivo, se candidatasse ao Legislativo[…] Na câmara de vereadores, a minha cadeira, uma das principais ações é fiscalizar[…] Peço que o senhor repense as suas atitudes porque não é a primeira vez que o senhor falta com o respeito e espero que seja a última”, finalizou.

O vereador Maurivan Vargas (PSL) defendeu o prefeito quando disse que entende que a vida particular do prefeito só interessa a ele mesmo.

“Em se tratando do assunto da vida pessoal do nosso prefeito eu acho que cada um faz na sua vida particular o que bem entender. Acho que nós não devemos aqui estar criticando. Só criticando o prefeito. Se for uma crítica construtiva tudo bem[…], mas agora o que mais a gente vê são pessoas nas redes sociais falando muitas coisas que nem sabem do que estão falando[…] Ninguém consegue trabalhar sendo criticado diariamente”, considerou o vereador.

Em sua manifestação o vereador Sergio Neumann (PT) considerou que os atos exagerados do prefeito não contribuem em nada com a administração do município e que soam como uma afronta à população.

“Senhor prefeito eu acho muito fiasquento isso tudo que o senhor está fazendo[…] Eu já ajudei muito o município. Consegui diversas emendas com deputados em Brasília[…] E nem por isso vim pra tribuna fazer um griteiro, dar soco na mesa[…] eu acho que isso fica muito feio pras pessoas que estão aqui nos assistindo. Isso é pra fazer uma afronta pra eles[…] Acho isso tudo uma coisa muito feia”, resumiu o vereador.

A fala do vereador Breno Garcia (PP) também foi de repúdio aos atos do prefeito no episódio do final de semana. O vereador confirmou ter falado em vergonha noutra sessão legislativa.

“Na verdade, o que eu falei foi o seguinte: eu não sei se tenho pena de quem lhe apoiou, pelas atitudes que o senhor tem tomado, aos finais de semana, ou se sinto vergonha de ter um município governado por uma pessoa que toma as atitudes que o senhor tomou nos últimos dois finais de semana” explicou.

Breno revelou que apesar de ter sido acionado por diversas pessoas para que a câmara de vereadores cobrasse do prefeito explicações sobre a apreensão dos R$ 505 mil no aeroporto de Congonhas/SP, ele e os demais vereadores decidiram que não cabe ao Legislativo buscar essas respostas, mas à Polícia Federal e Receita Federal, uma vez que não se trata de verba pública, mas sim de dinheiro particular.

O progressista destacou sua condição de oposição política ao governo municipal e disse que seguirá fazendo os pedidos de informação que julgar necessários, considerando que o papel atribuído ao vereador é também de fiscalizar o Executivo.

“Teve gente que achou bonito o que o senhor fez. Problema deles. Eu não achei[…] A vida particular de cada um? Sim. Compete a cada um. Só que nós somos pessoas públicas. Devemos respeito à população”, ressaltou o vereador que concluiu sugerindo ao prefeito que de menos atenção aos comentários e críticas das redes sociais da internet.

O último vereador a se pronunciar na tribuna foi Dionatan Lietz (PSL) quando disse que embora não concorde com a forma que o prefeito agiu ao se referir à população, entende que a atitude tenha sido um desabafo.

“Respeito ele como prefeito e como ser humano, isso não significa que eu pense como ele ou que eu fosse agir como ele age. Não estou criticando, também não estou elogiando[…] A gente vive numa democracia, onde cada um tem seu direito de pensar e de expressar sua opinião[…] Cada um de nós tem a sua[…] talvez se a gente estivesse no lugar dele a gente não sabe a atitude que a gente iria ter, porque a pressão pega. Eu como vereador já tive vontade de desistir. Eu como vereador já tive vontade de inúmeras besteiras que vocês nem pensam[…] não estou defendendo ele e nem estou julgando[…] Respeitem. Não precisa elogiar o prefeito, mas respeitem”, concluiu.