POR JOSSANA CEOLIN CERA

Condições meteorológicas ocorridas em setembro de 2020

Em termos de precipitação, no Rio Grande do Sul (RS) foram observados padrões distintos durante o mês de setembro. A metade Norte, como um todo, teve baixos volumes acumulados (menos de 100mm), ficando a anomalia de precipitação negativa. Na Metade Sul, nas regiões da Fronteira Oeste e Campanha, os acumulados até chegaram aos 100-150mm, mas, ainda assim, abaixo da média climatológica. As regiões que tiveram precipitação entre 150-200mm foram as da faixa Leste e Central do Estado, em que a anomalia de precipitação ficou positiva (Figura 1 A e B).

Precip set 2020
Mapa da precipitação acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B) durante o mês de setembro de 2020

Figura 1) Mapa da precipitação acumulada (A) e da anomalia da precipitação (B) durante o mês de setembro de 2020 em relação à média climatológica no RS. As escalas de cores indicam, em mm, o acumulado de precipitação (A) e a anomalia de precipitação (B), onde valores positivos (azul) indicam precipitação acima da média e valores negativos (laranja-vermelho) indicam precipitação abaixo da média. Fonte de dados: CPTEC/INMET.

Além dos altos valores acumulados de precipitação na Metade Leste e Região Central, a frequência da precipitação também foi maior, principalmente na 1ª quinzena do mês. Camaquã, por exemplo, teve 18 dias com precipitação superior a 1mm (Figura 2). Como pode ser observado na Figura 2, os locais onde houve maior frequência de precipitação foram, também, os que tiveram os maiores volumes acumulados, exceto Santa Vitória do Palmar, na Zona Sul, onde houve apenas dois eventos principais de chuva, sendo um deles bastante intenso.

As temperaturas tiveram certa oscilação, com mínimas abaixo dos 10 °C, em torno do dia 20, e máximas próximas de 30 °C, no dia 25. Mas, de modo geral, as temperaturas apresentaram tendência de aumento ao longo do mês, como se observa nos gráficos. As oscilações e a tendência de aumento de temperatura são normais para essa época do ano, já que se trata da transição entre o inverno e o verão. Com relação às anomalias mensais, tanto as mínimas quanto as máximas ficaram abaixo da média, -1,0 e -1,9 °C, nas regiões da Campanha e da Zona Sul, respectivamente.

fig 2 precip diaria

Figura 2) Temperatura máxima e mínima diária (°C) e precipitação pluvial diária (mm) durante setembro de 2020, em alguns municípios da metade Sul do RS, que representam as regiões arrozeiras (Uruguaiana – Fronteira Oeste, Dom Pedrito – Campanha, Santa Maria – Região Central, Camaquã – Planície Costeira Interna, Porto Alegre – Planície Costeira Externa e Santa Vitória do Palmar – Zona Sul). Acima de cada gráfico, em verde, estão o acumulado mensal e o número de dias com precipitação acima de 1 mm. Fonte de dados: INMET.

Situação atual do fenômeno ENOS (El Niño-Oscilação Sul) e perspectivas

Segundo o relatório mais recente da NOAA (National Oceanic and Atmospheric Administration), existe 85% de chance das condições da La Niña continuarem durante o verão e 60% de chance para o período do outono. As anomalias da circulação atmosférica sobre o Oceano Pacifico Equatorial continuaram consistentes com o padrão de La Niña durante setembro. Ou seja, de modo geral, o sistema oceano-atmosfera está acoplado, o que indica que o padrão La Niña continuará nos próximos meses.

O pico do resfriamento deverá ocorrer até o final do ano, assim, se configurar de fato, o La Niña será de curta duração e possivelmente de moderada intensidade, pelo que indicam os modelos. Neste mês de setembro, a anomalia negativa das águas do Oceano Pacífico Equatorial aumentou de magnitude e abrangência, como pode ser visto na Figura 3.

Durante setembro, a anomalia média na região Niño3.4 foi de -1,0 °C e na semana de 1º a 7 de outubro, a anomalia, na mesma região, chegou a -1,5 °C, o que poderá caracterizar uma La Niña de forte intensidade em alguns momentos da primavera e verão, o que gera apreensão.

A boa notícia fica por conta do que está ocorrendo no Oceano Atlântico Sul, com anomalias de temperatura cada vez mais positivas. Se continuar, ele poderá amenizar ou até anular o efeito do resfriamento no Pacífico e, assim, trazer uma condição melhor de chuvas para o RS durante o verão.

TSM set 20201
Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de setembro de 2020

Figura 3) Anomalia da Temperatura da Superfície do Mar no mês de setembro de 2020. O retângulo central na imagem mostra a região do Niño3.4, a qual os centros internacionais utilizam para calcular o Índice Niño (índice que define eventos de El Niño e La Niña). Já o retângulo menor mostra a região Niño 1+2, que modula a qualidade, ou seja, a regularidade das chuvas no RS. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

Outro fator que dá sustentação ao resfriamento em superfície é a temperatura das águas subsuperficiais na região do Pacífico, que tem se mantido mais fria que o normal. Além disso, chama atenção as águas com anomalias positivas de temperatura, mais à Oeste, na região da Austrália, como se pode observar na Figura 3.

Porém, em profundidade, essas águas mais aquecidas parecem estar com deslocamento para Leste, em profundidade. Ainda é preciso acompanhar este deslocamento, mas ele poderá se misturar às águas de anomalias negativas, enfraquecendo esta ainda não configurada La Niña, mais adiante.

Temp  Subsuperficial outubro 2020
Anomalia da temperatura (°C) subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico

Figura 4) Anomalia da temperatura (°C) subsuperficial das águas na região Equatorial do Oceano Pacífico em relação à profundidade (de 0 a 300 m). Pêntadas significam média de cinco dias consecutivos. Fonte: Adaptado de CPC/NCEP/NOAA.

Precipitação no trimestre novembro e dezembro de 2020 e janeiro de 2021

A primavera é a estação de transição entre o período frio (inverno) e o período quente (verão) do ano, por isso, oscilações são normais. No caso das temperaturas, é comum ter dias de frio, até com formação de geada, seguidos de dias mais quentes, com temperaturas próximas ou até superiores a 30 °C. Com relação às chuvas, o padrão é o mesmo!

Observando a climatologia, os volumes e a frequência das chuvas são maiores nos meses de setembro e outubro em relação a novembro e dezembro. Além disso, a partir de novembro, com o aumento da temperatura, a evapotranspiração também é maior e, dessa forma, diminui ainda mais a umidade no solo disponível para as plantas.

Com a temperatura da água do Oceano Pacífico mais fria, a tendência é de que as chuvas fiquem ainda mais espaçadas que o normal. Assim, de modo geral, as previsões apontam para anomalias negativas da precipitação para os próximos meses.

Para novembro, o Modelo Regional Climatológico, implementado no Centro de Pesquisas e Previsões Meteorológicas da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) prevê chuvas abaixo da média, assim como o modelo americano CFSv2. O modelo do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) também prevê que as chuvas ficarão abaixo da média, algo em torno de -40 a -80mm.

Em dezembro, a situação melhora para a maioria das regiões. A metade norte deve ter maior volume de chuvas, podendo algumas regiões ficarem com anomalias positivas, como é o caso da região Noroeste do RS, o que beneficiaria parte da Fronteira Oeste. Já a metade Sul, além de ser uma região em que chove menos (Figura 5B), os modelos preveem que as chuvas deverão ficar entre o normal e abaixo do normal, entre -30 e -60mm.

Em janeiro, a situação pode ser semelhante à de dezembro. Os modelos continuam indicando chuvas em menor volume na metade Sul do Estado, quando comparada à metade Norte. Porém, precisa-se ainda monitorar a temperatura da água do Oceano Atlântico, pois se continuarem com anomalias positivas, o cenário poderá mudar um pouco.

Previsão NDj 2020
Normal climatológica da precipitação para os meses de novembro (A), dezembro (B) e janeiro (C)

Figura 5) Normal climatológica da precipitação para os meses de novembro (A), dezembro (B) e janeiro (C) para o RS (referente ao período 1981-2010). Os mapas (D), (E) e (F) representam se a precipitação ficará acima (verde), abaixo (laranja) ou dentro do normal (cinza), nos meses de novembro e dezembro de 2020 e janeiro de 2021, respectivamente. Fonte de dados meteorológicos: INMET. Confecção e arte dos mapas: Jossana Ceolin Cera.

Devido ao resfriamento das águas no Pacífico, as chuvas ficaram mais irregulares, temporal e espacialmente, sendo mais espaçadas e não estão ocorrendo de forma homogênea em todo o Estado. Outro fator importante a destacar é que o bloqueio atmosférico foi rompido e algumas frentes frias têm avançado para as regiões Sudeste e Centro-Oeste do Brasil. Este padrão é normal e ficará mais frequente daqui por diante.

Ou seja, o canal de umidade vindo da Amazônia, que antes estava só para o RS, alimentando as frentes frias, agora passa a ser dividido com outras regiões do País, diminuindo a umidade para gerar chuvas no RS. Por isso, com a proximidade do verão, as chuvas ficam mais comuns.

Devido ao resfriamento no Pacífico, frio tardio ainda pode ocorrer. Não quer dizer que vai ter geada, mas que as temperaturas podem ficar abaixo do normal para a época do ano. Além disso, o frio poderá chegar mais cedo no final do verão, sendo um risco para as lavouras de arroz semeadas após o período recomendado. O produtor de arroz deve ficar atento a isso!

No último levantamento realizado pelo Instituto Rio Grandense do Arroz (Irga), no dia 15 de outubro de 2020, a semeadura de arroz no RS estava em 45,3%. Nesta mesma época, na safra passada, o percentual era de 46,8%, ou seja, muito similar. A diferença é que nesta safra a maior parte das lavouras foram semeadas em outubro e na safra passada foram em setembro, devido àquele setembro ter sido mais seco.

Com relação aos reservatórios, diante de toda a conjuntura, deve-se fazer o alerta de que aqueles que ainda estão abaixo de seu nível máximo, poderão não encher nesta safra. Embora se esteja em um período inicial de La Niña, chuvas volumosas, em curtos períodos, poderão ocorrer em algum momento.

No entanto, o produtor que por ventura ainda não tem seu reservatório cheio, precisa ponderar quantos milímetros precisaria para encher e, além disso, qual é a captação de água deste reservatório. Pois, dentro de uma mesma regional, tem-se vários cenários, desde reservatórios cheios até aqueles com menos de 50% da capacidade. Com isso, este produtor deve ponderar a relação entre a área de arroz a ser semeada e a água que ele tem disponível para irrigação.

Jossana Ceolin Cera é meteorologista, doutora em Engenharia Agrícola pela UFSM e consultora do Irga.