Um visionário para o seu tempo

Para e elaboração deste texto o Regional esteve conversando com netos, bem como coletando depoimentos de alguns moradores da cidade de Arambaré, onde boa parte da história de Irineu Atahualpa é registrada, e também da pesquisa realizada por João Máximo Lopes em 2002.

 

Do Uruguai para o Rio Grande do Sul

Segundo registros Irineu Atahualpa Cibils era natural do Departamento de Durasno, na República Oriental do Uruguai (ROU), onde nasceu em 25 de março de 1883.

Sua ascendência na república vizinha era das mais ilustres e ligadas as atividades rurais, culturais, industriais e navais, etc. Era filho de Ignácio Cibils Y Calvet natural de Montevidéu e de D. Cipriana Cornélia Rabelo de Cibils.

Imagem Primeiro Intendente de Camaquã: Cel. Cristóvão Gomes de Andrade Foto: Pref. Camaquã

Foi na cidade de Rio Grande em uma de suas passagens que conheceu Cel. Cristóvão Gomes de Andrade, (Primeiro Intendente de Camaquã atuando de 01/01/1892 a 01/01/1904), acaso ou não, o que se sabe que foi dessa conversa que o Drº Cibils veio parar em Camaquã a convite do Coronel.

E com 25 anos de idade, no ano de 1908 ele desembarcou no Porto de Arambaré com sua família, sua esposa Aurea Maria Diez Cibils e sua filha Maria Helena com apenas dois anos de idade na época. Chegou via Rio Grande, no barco a vela “Javi” de propriedade do mestre Justino Gonçalves da Silva, a famoso barco naufragou em 04/08/1911 em Mostardas.

 Curiosidades

Segundo depoimentos, Drº Cibils haveria brigado com seu pai Ignácio Cibils esse um conceituado fazendeiro, e que sua mãe Cipriana Cornélia Cibils lhe entregou uma boa soma em dinheiro para ele vir e exercer o que mais amava.

 

Clínica Médica em Camaquã

Chegou à cidade de Camaquã onde se instalou com clínica médica onde hoje é a Praça Sylvio Luiz (Praça da Igreja), morou por um bom tempo no prédio onde hoje está situado a Câmara de Vereadores de Camaquã. Era um dos mais solicitados. Tratava de todas as enfermidades comuns da época, com raríssimos insucessos. Praticou benemerências aos necessitados e, dos abastados, não cobrava honorários, aceitava recompensas sob diversas formas como bois, vacas, ovelhas, cavalos, terras, etc.

Cibils por um bom tempo morou no prédio onde hoje está situado a Câmara de Vereadores de Camaquã

É importante destacar o desconforto da época, registra-se que, chegar à Camaquã, na “ . . . década de 20 (1920), significava sempre uma pequena aventura. A etapa inicial do percurso Porto Alegre á Camaquã, era via lagunar, os vapores Bubi, Montenegro e Vera Cruz, margeando o Guaíba, conduziam os viajantes de Porto Alegre à Barra do Ribeiro. Quatro horas em média. Ali, as diligências aguardavam os passageiros para uma viagem de dois dias, pela chamada estrada real, com pernoite no distrito de Dores de Camaquã, hoje Sentinela do Sul.” Em Camaquã e cidades vizinhas não havia hospitais e os casos mais complicados remetia a Porto Alegre ou Pelotas.

 

Aquisição de sua primeira morada

 

 

Primeira morada de Irineu Atahualpa foto: Figura 

Em frente da casa tapera, uma estrela provavelmente servia como um jardim. Foto Figura

O Dr. Cibils, como se disse chegou a Camaquã, em 1908 e, no ano seguinte, com economias que trouxera, acrescidas de outras que ganhara com seu trabalho adquiriu, em 13 de outubro, sua primeira estância, conhecida como Fazenda Velha, de João Joaquim Soares (João Fredo), formada por partes das sesmarias de Nossa Senhora dos Prazeres e Capão do Meio, no município de Tapes.

Curiosidades

Já nos dias de hoje visitando a Tapera morada, observa-se em frente sua casa o formato de uma estrela onde certamente era um jardim, abaixo do pé da figueira um escavado, pela porta dos galpões também nota-se alguns escavados, acredita-se que talvez forasteiros estivem procurando por algo enterrado, o que seria? Isso fica a critério de cada um imaginar, ouro, relíquias, artefatos enfim, nãos e sabe.

Escavados no chão da propriedade dão ideia que alguém procurava por algo Foto: Figura

 

Doutor começa a desenvolver atividade voltada pra agricultura

A vocação para a vida rural, herdada do pai, Ignácio Cibils, cedo levou-o a se expandir em novas aquisições nos municípios de Camaquã e Tapes, onde desenvolveu de início, a criação de gado das raças europeias e a agricultura. Concomitantemente, começou a se desinteressar pela medicina, abandonando-a, definitivamente, quando o Governo Federal decidiu regulamentar o seu exercício. Depois de tornar-se o maior proprietário rural em Camaquã e o segundo em Tapes e de obter, anualmente, grandes produções de arroz, tratou de industrializar e exportar essa produção, quando transferiu sua residência para a localidade de Caramuru, atualmente denominada de Cisbislândia, à margem esquerda da barra do Arroio Velhaco, contígua à então Vila de Arambaré, exatamente, no local onde desembarcou vindo de Montevidéu, no ano de 1908.

 

Prédio da empresa, Industrialização e comercialização

 

 

Instalações Industriais da Cibils S.A. no Balneário de Arambaré, hoje no local existe a Revenda de carros BM Veículos

O local ainda guarda alguns traços do antigo prédio

 

Construiu um edifício de concreto armado de 7 andares, cujo projeto incluía hotel, cassino (sala de jogos) e restaurante. Esta colossal obra foi concluída em 1939.

Lá funcionou escola para os funcionários, hotel, bar, restaurante, já segundo relatos o Cassio não chegou a funcionar.

Este imenso prédio pode ser visto ainda hoje, no local está situado a empresa BM Veículos bem as margens da Lagoa, outro fato bastante curioso no prédio são as paredes “Ocas”, para alguns um mistério, para outros a explicação seria para abafar o som dos equipamentos da empresa.

 

Escritório Cibils S/A hoje prédio da prefeitura de Arambaré

Prefeitura de Arambaré foto atualizada 2021

Com esse objetivo fundou, em outubro de 1939, a firma Cibils & Becker, para atender o comércio e, a firma Cibils & Schwalm para tratar da industrialização do arroz.

Reunindo essas atividades, em 22 de fevereiro de 1942, surgiu a firma Cibils & Cia. Ltda. e, como medida de transição, em 31 de outubro de 1943, passa a operar com nome individual para, a final, em 1949, criar a Cibils S.A. — Agricultura, Indústria e Comércio, fundada no dia 25 de março daquele ano, dia de seu aniversário, quando distribuiu grande número de ações. Proprietário de um grande engenho de arroz exportava o produto industrializado para as principais cidades do país, através de porto e navegação próprios, com os barcos “Domador” e “Iucatan”, sem dispensar a contratação de outros para atender a demanda de seus negócios. Tanto na indústria quanto no comércio, propiciava participação nos lucros a todos os empregados, com quem, também, tomava medidas de cuidado na saúde, educação, moradia, e outras de cunho, eminentemente social.

Veremos a seguir, como ele foi um socialista na agricultura e um inovador nos empreendimentos rurais da época. Para que se compreenda melhor o alcance social de sua obra, é necessário que se faça um retrospecto da lavoura arrozeira da região à época de sua convivência entre nós (1908 – 1962). A lavoura camaquense começou, timidamente, lá por 1902, de forma experimental, seis anos antes da chegada do Dr. Cibils e, foi crescendo rapidamente frente aos bons resultados. Em 1910, já havia lavouras com áreas próximas a 100 hectares e logo a seguir surgiram empreendimentos de forma empresarial com o plantio de grandes áreas. Excluindo-se parte da irrigação que era mecânica, através de locomóveis importados da Europa, tudo o mais, era executado por tração animal. A colheita era manual. A industrialização evoluiu junto com a lavoura. Não havia estradas e o transporte era com carretas puxadas a boi e carroças a cavalo.

Curiosidades

O barco Domador ainda hoje e pode ser viso na entrada de Porto Alegre, apesar do tempo o barco ainda se encontra em atividade. Cibils ainda teria um escritório no Porto de Rio Grande onde o arroz saia de Arambaré via barco para lá e de Rio Grande via mar comercializava em diversas cidades do Brasil.

Barco Domador

 

Exploração agrícola da fazenda era feita pelo sistema de parceria

Pois bem, os campos da Cibils S.A. – Agrícola, Industrial e Comercial, situavam-se nos municípios de Tapes e Camaquã, compreendendo uma área de mais de 15.000 (quinze mil) hectares, sendo 8.000 (oito mil) em Camaquã e 7.000 (sete mil) em Tapes, divididos pelo Arroio Velhaco cujo manancial servia de irrigação e, ainda alimentava uma rede de açudes destinados à mesma finalidade, sem necessidade de recalque mecânico. Avenida de Coqueiros, plantados pelo biografado na vila Caramurú, hoje Arambaré.

Toda a exploração agrícola da fazenda era feita pelo sistema de parceria em que os parceiros eram, também, sócios da empresa. Estavam assentadas nas terras da Cibils S.A. aproximadamente, 250 famílias, distribuídas na agricultura, pecuária, indústrias e serviços burocráticos. A economia principal da empresa era a orizicultura, com área em torno de 2.500 hectares. O pagamento pelo uso da terra, variava de 15 a 25% da produção segundo a participação da empresa na parceria. Toda a família tinha direito a uma porção de terras para o plantio de culturas de sobrevivência, sem quaisquer ônus, bem como ao uso de madeiras de matos naturais ou cultivados para o uso nas moradias ou nos empreendimentos agrícolas e, ainda, campo para os animais de serviço.

Atafona

O Dr. Cibils, sempre pensou na diversificação da produção. Nesse sentido, estimulou ainda, entre seus associados, à produção da mandioca e, concomitantemente, visando industrializá-la, construiu uma atafona de grandes proporções à margem esquerda do arroio Velhaco, logo em seguida à ponte da BR-116 e contemporânea à construção desta. No mesmo conjunto industrial funcionava ainda uma serraria movida a locomóvel para beneficiamento de madeira, fundição, especialmente de bombas de irrigação, armazém de secos e molhados, restaurante, hotel, oficina mecânica e posto de gasolina.

 

 

“La Cornélia”

Nome da fazendo foi em homenagem a sua mãe D. Cipriana Cornélia Rabelo de Cibils

A fazenda “La Cornélia” leva esse nome em homenagem a sua progenitora, D. Cipriana Cornélia Rabelo de Cibils. Ali, onde residiu por algum tempo e na ausência de hospitais, abrigava seus amigos quando enfermos e, era área excluída no referido Plano Diretor, eis que, reservada à construção de um hospital.

Um mistério sobre as letras existente no símbolo da casa serão dificilmente decifrados, onde quem passa pela estrada pode identificar na parte superior das duas janelas as letras (Y, A, C), seria o nome do Doutor Irineo por ser do Uruguai escrito com Y, e ao vir para o Brasil passou a assinar com I, a também uma hipótese levantada pelo neto Iraja Barretos Cibils, é de que os jardim feito na propriedade da casa, foi feito em homenagem a Deusa Grega Cibele, claro nada foi comprovado mais que poderia ser uma origem do sobrenome Cibils.

As siglas Y, A, e C estão entrelaçadas no alto da casa

 

Família do Doutor Irineu Atahualpa Cibils

A formação sócio cultural dos filhos ficou a cargo de esposa Aurea Maria Diez Cibils.

Foto de Irineo e de Aurea Maria Diez Cibils

A filha, Maria Helena, a mais velha dos quatro filhos e que veio com ele do Uruguai, estudou no Colégio Sevigné, em Porto Alegre onde fez o primário e secundário completos o que, para os costumes da época, era o suficiente para a mulher. O Dr. Atahualpa Ignácio Cibils, o segundo na ordem, formou-se em Química Industrial na Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Línguas na Suíça, era poliglota; o Dr. Luiz Alberto Cibils, advogado, foi procurador do Estado, professor universitário, dentre outros títulos e, também, historiador a quem, se deve, Tapes, Camaquã, Guaíba e Barra do Ribeiro que resgata a história da região e, por último, o Dr. Ruben Cibils que, a exemplo do pai seguiu a carreira da medicina exercitando-a, inicialmente, na sede da fazenda “La Cornélia” na Coxilha Grande, município de Tapes, depois, em Porto Alegre até a sua aposentadoria. Todos eles, do primeiro matrimônio com Aurea Maria Diez Cibils (01.11.1883 – 04.03.1969). Os filhos e netos, embora exercendo simultaneamente outras profissões dedicam-se predominantemente, às atividades agropecuárias.

Rubem, Maria Helena, Luis Alberto e Atahualpa Ignácio Cibils

Segundo casamento

Do consórcio com Noêmia Ramos Cibils, teve três filhos: Bolívar Ramos Cibils, Vênus Ramos Cibils e Violeta Blanca Cibils, dos frutos dos dois casamentos vivo somente Bolívar Ramos.

Irineo faleceu em Porto Alegre em 28 de novembro de 1962, aos 79 anos e sepultado a seu pedido, no cemitério de seu primeiro imóvel adquirido no Brasil.

Ele foi uma exceção, até hoje, no meio empresarial da região, ao deixar para sua pátria adotiva, tantas obras de relevante valor social e econômico.

Maosoléu onde repousam os restos mortais do ilustre cidadão Irineo Atahualpa Cibils, segunda esposa Noêmia Ramos Cibils e a filha Vênus Ramos Cibils

Homenagem

Em sua homenagem pelo projeto de lei 822 28/06/1973 pelo prefeito de Tapes Paulo Afonsin Simchem, o bairro Caramurú passou a chamar-se então Cibislândia. Na época pertencia a cidade de Tapes, hoje bairro da cidade de Arambaré.

Pois bem antes no seu começo todo o transporte de cargas e de pessoas eram lacustres portos, trapiches, Barcos, mais tarde quando foi feita Br 116. O lugar ficou sem movimento e o hotel acabou. Esta rodovia não só mudou o trânsito como também as atividades econômicas do local.

Escola Municipal de Ensino Fundamental Atahualpa Irineo Cibils

A Sra. Secretária de Estado da Educação, a Profa. Iara Wortmann, por delegação do Governo do Estado, através da Portaria no 00063, de 28 de janeiro de 1991, publicada no D. O. de 4 de fevereiro subsequente, denominou Escola Estadual de Primeiro Grau Incompleto Atahualpa Irineo Cibils a escola existente em Cibislandia, hoje, bairro do município de Arambaré. Devido à política de pessoal do Governo do Estado, essa escola foi, posteriormente, municipalizada. A ainda registro na localidade da Marujita uma primeira escola que levava seu nome.

Localidade da Marujita exite já tapera a primeira escola que levou seu nome.

 

Fontes Consultadas:

Marta Garcia Cibils

Irajá Barretos Cibils

Pesquisa de João Máximo Lopes -2002-

Documentos do arquivo do Núcleo de Pesquisas Históricas de Camaquã — NPHC