Desde o último sábado, 02 de janeiro de 2021, as pessoas que foram visitar a cachoeira do arroio São Silvestre, um dos cartões postais do município de Cerro Grande do Sul, encontraram uma porteira fechada no acesso ao local, impedindo a passagem de veículos a partir de um determinado ponto do percurso.

O proprietário dá área, Pio Giovani Dresch, explicou que tomou a medida para coibir os abusos que vêm ocorrendo por parte de algumas pessoas que não estavam respeitando os avisos e causando danos ambientais no local, além de outros transtornos.

Em um dos casos, na última sexta-feira, dia 1º do ano, um visitante dirigindo uma camionete Chevrolet S10, desrespeitou o aviso de não acessar o local de carro e acabou atravessando o veículo em uma vala da trilha. O motorista precisou abandonar a camionete no local e só resgatou no outro dia.

“Eu ia deixar pra fechar depois do verão, mas com este incidente resolvi por antecipar o fechamento”, explicou Pio.

Ainda em fevereiro de 2020, o proprietário da área explicou em uma reportagem produzida pelo jornal Regional e Portal ClicR que não pretende explorar o turismo economicamente na cachoeira, contudo também não iria proibir as visitações, porém destacou que haveriam algumas mudanças, sobretudo a restrição da travessia de veículos, com a finalidade de recuperar a vegetação nativa degradada e que as travessias poderiam ser feitas a pé.

No artigo abaixo o proprietário expõe com clareza os motivos que o levaram a tomar a decisão. Confira:

A serpente estraçalhada, a orquídea roubada e o cão abandonado

Pio Giovani Dresch – Juiz de Direito

Disse ao Cícero: “fechei a porteira; queres um artigo?” Com o sim, veio a obrigação de escrever e a dificuldade em fazê-lo. Tentarei explicar a medida.

Começo com uma pergunta: como administrar uma área banhada por um arroio no qual é captada a água da cidade e onde se encontra uma cachoeira visitada por milhares de pessoas num ano?

Essa foi a dúvida que por tempo me afligiu, após ver na internet o anúncio de venda, acompanhado de um vídeo que mostrava a beleza da cachoeira.

Eu tinha, como tantos hoje têm, a ideia de ajudar a salvar o planeta, esse planeta, nossa casa, já tão maltratado por um sistema em que o dinheiro é o fim máximo, mesmo que sua busca cause crise climática, desmatamento, extinção de espécies e risco para a sobrevivência da própria humanidade.

Seria possível preservar um lugar assim tão frequentado? Ou seria o caso de, como me foi sugerido, adquirir e proibir a visitação?

Ao final, a decisão foi de aceitar o desafio e compreender que a preservação da natureza se pode fazer também com a captação da água e a presença de visitantes: a Corsan e os visitantes podem mesmo potencializar o propósito preservacionista, porque hoje a maioria das pessoas tem essa mesma preocupação.

Uma das ideias – e por isso a máquina da prefeitura não entrou mais no Silvestre – é que o acesso à cachoeira se dê por trilha, abrindo espaço à vegetação e fechando o acesso a carros ou motos. O fechamento aos carros era uma coisa a ser implantada com o passar do tempo, mas foi precipitada pela conduta de uns poucos, que apenas querem fazer uso da cachoeira, sem a preocupação de preservar, muitas vezes até causando prejuízos. Nem falo do lixo, das garrafas, latinhas, sacos e outras coisas inomináveis deixadas no local, que recolhemos todas as semanas, às vezes com a ajuda de frequentadores preocupados; são coisas piores, como, por exemplo, causar incêndios ou matar animais silvestres.

Aliás, foi um incêndio, que só não se alastrou para o mato porque foi imediatamente combatido, que motivou a instalação de uma porteira, concluída há algum tempo, mas mantida aberta até o dia de Ano Novo. Pensávamos em aguardar mais um tempo para fechá-la, mas nesse dia o dono de uma camionete avançou além do arroio, mais parecendo que queria mesmo entrar na cachoeira com o veículo.

Este foi só mais um dos abusos, que são inúmeros. Há poucos dias, visitantes resolveram levar uma mulita numa sacola do Schwalm; quando viram que ela havia morrido, provavelmente sufocada pelo plástico, a abandonaram na saída. Outro dia, altas horas da madrugada, alguém desovou um saco com várias galinhas mortas.

Deste primeiro final de semana de 2021, em que muitos visitantes compreenderam e aceitaram a porteira fechada, há, além do lixo de sempre, três episódios que apenas confirmam a necessidade da medida.

No primeiro, o mesmo motoqueiro que se exaltou e ameaçou chamar a polícia para forçar a abertura da porteira, estraçalhou com as rodas da sua moto uma cobra cipó, a inofensiva cobra verde (talvez a polícia a ser chamada fosse a ambiental).

No segundo, a gentil senhora, que na chegada me sorriu e cumprimentou, saiu carregando uma bela orquídea nativa, que há meses floria na cachoeira.

Para completar, houve quem tivesse a coragem de abandonar um dócil cão brasino, cadela com tetas de muitas ninhadas, que passou a nos contemplar com olhos de fome.

Assim tem sido. Queremos que nos ajudem a cuidar dessa beleza natural de Cerro Grande do Sul, queremos preservar este pequeno pedaço de nosso planeta. A porteira permanecerá fechada para carros e motos, mas o acesso será sempre permitido a pé. E pedimos ajuda aos tantos que, como nós, acham importante preservar esse local.

P.S. A cadela foi alimentada, mas está à espera de quem queira adotá-la.