Fonte: GZH

Fraudes envolvendo o WhatsApp são as mais comuns no RS, segundo a polícia

A pandemia fez dispararem os casos de estelionato no Rio Grande do Sul. Somente em abril mais de 6,3 mil pessoas procuraram a polícia relatando terem sido vítimas dos mais variados golpes no Estado, um aumento de 51,79% na comparação com o mesmo período do ano passado.

Golpe do WhatsApp

A Polícia Civil relata que são quatro os tipos de golpes virtuais mais praticados neste período de distanciamento social no Estado, sendo que, em muitos deles, as transferências são feitas via Pix — para que os estelionatários tenham a garantia rápida do recebimento de valores. Além dos falsos sites ou do uso de contas em redes sociais para ofertar produtos,  há também os falsos leilões, principalmente de veículos.

Mas os mais recorrentes são os que envolvem a criação de falsos perfis no Instagram ou no próprio WhatsApp, com fotos das vítimas para clonagem da conta e posterior pedido de dinheiro para os contatos. As formas de abordagem estão variando, e uma delas aconteceu com a técnica em enfermagem Isabel Igansi, 39 anos.

 

Moradora da zona sul da Capital, ela recebeu uma ligação sobre o que seria uma pesquisa abordando a covid-19. Mais tarde, um suposto profissional da área da saúde pedia para que a finalização da enquete fosse confirmada por meio do envio de um código, por mensagem.

— Aí comecei a desconfiar que era um golpe, fiquei apavorada, nunca pensei que fosse acontecer comigo. Gente, tinha uma pessoa tentando me dar um golpe, clonar meu celular, meu Whats — conta.

Isabel diz que, por ter se lembrado de uma ex-colega que havia caído recentemente na mesma trapaça, não deu sequência à conversa. A Polícia Civil, após ser acionada, destaca que já tem a identificação de dois suspeitos e faz um levantamento de prejuízos.

Já a cabeleireira Ana Altermann, 36 anos, que tem um salão no bairro Santo Antônio, em Porto Alegre, resume como caótica a situação que passou. A profissional conta que precisou gravar vídeos e publicar nas redes sociais após duas clientes, algumas há 15 anos, repassarem dinheiro para criminosos pensando que ela estivesse pedindo auxílio para comprar um novo tipo de produto capilar.

— A família consegui avisar rapidamente, mas tenho uma agenda com mais de 300 contatos e foi um transtorno. O telefone do salão não parou naquele dia, pensaram até que eu estava sendo sequestrada. Uma cliente repassou R$ 900 para os golpistas e outra, R$ 1,5 mil. Foi um dia caótico, estressante, me senti inválida e fiquei completamente constrangida — ressalta.

 

Celular clonado

A cabeleireira teve o celular clonado depois que enviou código também por pensar estar participando de uma pesquisa. O envio da mensagem foi em meio a várias outras mensagens e ligações, quando colocou um carro à venda em sites.

Ana diz ter tomado todas as providências na área de segurança e que fez ocorrência policial, mas ressalta que não teve nenhuma orientação posterior. Ela afirma ainda que não teve qualquer tipo de auxílio por parte da operadora de telefonia e, por isso, acionou um advogado e ingressou com ação judicial contra a empresa.

Golpistas clonam o celular e tentam aplicar golpes em contatos relacionados

 

 

Cuidado e desconfiança

Os casos de golpes mais comuns durante a pandemia foram relatados pelo titular da Delegacia de Repressão aos Crimes Informáticos do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic), delegado André Anicet. Segundo ele, os fatos envolvendo WhatsApp são disparados os que mais têm acontecido, mas também há casos de perfil falso nas redes sociais anunciando promoção de produtos, serviços em geral e até festas — e normalmente com o mesmo objetivo, que é obter o código de segurança da plataforma de mensagens.

 

Há ocorrências em que não houve clonagem, mas, de alguma forma, o golpista obtém a foto de perfil da pessoa no WhatsApp e alguns contatos para pedir dinheiro. A vítima deve ficar alerta porque o número, neste caso, é outro, mas com a mesma foto do perfil — sendo assim, basta mandar uma mensagem para a pessoa que teve a foto usada indevidamente e confirmar que se trata de uma ação criminosa.

Anicet ressalta a importância do registro policial, mas, antes disso, a regra básica é nunca fornecer dados sem conferir a procedência e desconfiar sempre. O delegado diz que a prevenção depende de cada golpe (veja mais dicas abaixo).

Por exemplo, se pedirem dinheiro, códigos ou para que se entre em um link, um simples contato vai evitar que a pessoa seja mais uma vítima. No caso de sites que vendem produtos, Anicet recomenda verificar a razão social de quem realmente receberá o dinheiro ou o contato, já que os golpistas criam e-mails, por exemplo, com os nomes de sites conhecidos, mas que geralmente terminam com um servidor geral — após a arroba, o que não é comum entre estes grandes grupos que realizam vendas pela internet.

 

Na verdade, no que tange à prevenção, depende de cada golpe, claro, mas sempre, uma dica para todos, é ter cuidado e desconfiança. No caso do WhatsApp, o mais comum, nunca passar código de segurança e fazer a habilitação de segurança em duas etapas. Alerto ainda que criam páginas de falso restaurante ou de empresa de alimentos, simulando promoções e o que querem, na verdade, é o código do WhatsApp para clonar — resume o delegado.

 

Tecnologia a serviço do crime

Especialista em segurança, professor da PUCRS e doutor em Sociologia, Rodrigo Azevedo diz que, além de a pandemia fazer com que haja aumento no registro de ocorrências de golpes virtuais, o distanciamento social apenas acelerou um processo inevitável e que já estava ocorrendo:

— Cada vez mais as atividades, os serviços e as formas de pagamento, ou seja, tudo, têm se transferido para o meio digital, principalmente devido ao uso de smartphones. E sempre há falhas de segurança, bem como fraudes aplicadas para pessoas sem muito domínio da tecnologia, idosos principalmente, que têm informações expostas ou qualquer pessoa que acabe cedendo seus dados — diz.

O especialista resume dizendo que, se o cenário tende a migrar para o virtual, os delitos de oportunidades — furtos e estelionatos, que antes eram presenciais — também migraram.

Para ele, assim como em outras áreas, o crime e a polícia vivem em uma corrida de atualização diária, conforme os novos contextos em que a sociedade está inserida.

Na parte da punição a estes golpes, o desafio é mais do que identificar e prender suspeitos, mas orientar vítimas. Até porque, segundo a Secretaria de Segurança Pública do RS, a cada oito minutos, em 2020, um golpe foi aplicado no Estado.

No comparativo com 2019, os casos comunicados à polícia mais do que dobraram  — acréscimo de 120%. No total, foram 62.379 vítimas no ano passado.